quarta-feira, junho 04, 2008

“Mileuristas”

Outro dia li um artigo sobre os “mileuristas” rapaziada nascida entre 1968 e 1980, com qualificações académicas e que vegeta com ordenados à volta dos mil Euros mensais, fiquei cheio de pena, diz o artigo que muitos vivem em casa dos pais e pasme-se tem computador, ipod, mp3 e todas as tralhas das elites urbanas.

Lembrei-me que existe uma sub-classe dentro desta dos “mileuristas” uma classe também muito importante, a dos “quinhentoeuristas”, rapaziada igualmente qualificada mas que vive com metade do ordenado dos outros e nem a propósito recebi este mail:

Caro Barão deixe que lhe envie este pequeno desabafo, vale o que vale, quantos não seremos como eu, assim quase inumanos.

Diário de um “QuinhentoEurista”

São sete da manhã o despertador acabou de tocar, ensonado e cambaleante, caminho para a casa de banho pelo meio desperto a minha “Maria”, ensonada por mais uma noitada a trabalhar em papeladas inúteis concebidas por energúmenos do ministério da falta de educação, mas isso a senhora ministra não vê. O pequeno acordou às três da matina e veio para o meio de nós, dorme que nem um anjo o pequeno mafarrico, lá fora trinam os melros e os primeiros pardais, caem as primeiras gotas de água.

São sete e trinta, já dei a obrada da praxe, tomei duche, desfiz a barba, vesti-me e a mesa está posta para o pequeno-almoço estando também o biberão já pronto só falta aquecer, a “Maria” resmunga qualquer coisa e finalmente lá se arrasta para o banho, o meia leca continua a dormir daqui a 5 minutos aparece-me na cozinha, a balbuciar “carrinha mágica” desenhos animados preferidos do momento.

São oito horas saímos de casa, levar o pequeno à avó, santa instituição essa das avós, - Porra já estou atrasada! – Pois esperam-na ainda 40 quilómetros de estradas das boas, são 25 Euros de gasóleo por semana a preços de hoje, amanhã logo se vê, transportes públicos só se for um dia antes para chegar a tempo, dormindo claro está à porta da escola. - Invectivo a “Maria. – A que horas te deitaste?

- Duas e pouco tu tá lá calado já deito projectos e relatórios e avaliações pelos olhos, que vida de merda!

- Como eu a percebo!

São nove horas estou a entrar no local de trabalho, um serviço público que só abre às 10 e em que a minha hora de entrada é às nove e meia, ou seja quando abre já tenho uma hora de trabalho, que claro ninguém contabiliza, também quem me manda ser parvo, mas pelo menos o trabalho está sempre pronto a horas e a consciência tranquila.

São agora meio-dia e meia, voo até casa, fumo um cigarrito rápido pelo caminho, almoço qualquer coisa, apanho a roupa que ficou a secar, meto mais na máquina para lavar, arrumo a loiça e volta a colocar mais loiça para lavar, hoje felizmente não é dia de aspirar, sim porque só tenho dinheiro para pagar a uma mulher-a-dias quatro horas de quinze em quinze dias, no entremeio à vez eu ou a “Maria” fazemos as vezes dela, afinal somos nós que sujamos, por isso não te queixes.

São catorze horas estou aqui há quinze minutos, lá vêm os primeiros clientes, segue-se um dia normal, avarias, aulas, e uns dedos de conversa, ajuda gostar daquilo que faço, ainda fujo uma ou duas vezes para um cafezito e um cigarrito. Dezoito horas fecho a tasca, volto para casa, vou buscar a criança, sento-me um pouco com a “Maria” trocamos uns dedos de conversa e ala que se faz tarde.

Acabaram de apitar as dezanove horas, estou a pé há doze horas, vou fazer o jantar, enquanto a “Maria” dá banho ao minorca, ponho a mesa, arrumo qualquer coisa, tenho tempo ainda de emborcar uma Sbock, vou arrumar a casa de banho que fica num pranto cada vez que aquele menino toma banho, vinte uma horas, depois do fadário do costume para fazer o pequeno moinante comer, fumo um cigarro à varanda, de seguida vou arrumar a cozinha, deixar comida meio preparada para manhã, rapidamente chego ao quarto da pequena melga, vou brincar com ele, corremos, saltamos, rimos muito e depois uma história, que ele adora.

Hoje tenho trabalho, uma tradução, porreiro vou ganhar mais uns trocos, acabo à uma e pouco, estou a pé há 18 horas, levanto-me da cadeira, lavo a dentuça e vou dormir, amanhã espera-me outro dia e depois outro, tenho 40 anos, sou licenciado, tenho uma pós graduação e um mestrado a meio, falo 6 línguas escrevo fluentemente 4 delas, tenho competências informáticas e excelentes referências profissionais, ganho 400 e tal Euros nos meses bons 500, pago impostos muitos, tento ser bom pai e marido e excelente profissional, sou honesto e respeitador, altruísta e participativo e esta é a minha vida nesta merda de país onde tive a infelicidade de nascer, quantos como eu andam por aí, tristes desiludidos fartos disto tudo...

Um abraço deste vosso amigo

Barão da Tróia

5 comentários:

Anónimo disse...

Pois , como eu o entendo.
Viver em casa dos pais com todas as mordomias e mais uns mil euros no bolso é porreiro.
Desfrutar de todas as aparelhagens modernas é porreiro.
Mas, claro que a VIDA de CASADO com responsabilidades FAMILIARES, com FILHO é outra história.
touaqui42

Abril disse...

Há uma coisa de que te esqueceste de dizer,é que és um "miudo"espectacular.Ainda continuo a dizer que quando o D.Afonso Henriques nasceu,deviam de ter enfiado o gajo num balde cheio de água,pelo menos não tinhas nascido neste perdieiro e tinhas a gasolina mais barata.

Um abraço

Abril disse...

Não é "PERDIEIRO" é PARDIEIRO,mas para estar correcto deveria ser MERDIEIRO.Está rectificado Sr.Professor.

commonsense disse...

A grande prioridade não é o choque tecnológico, são os professores. Isto, parece que ninguém compreende ou quer compreender.
A coisa mais urgente a fazer neste pobre país é dignificar a função docente.
Mas isso nunca acontecerá enquanto Portugal for governado por um "pequeno engenheiro" e mandado pela grande engenharia.
Isso, bem podia - e devia - o Presidente dizer no 10 de Junho.
Parabéns pela heroicidade.

Leonor disse...

o homem conseguiu escravizar-se desde o neolitico.
beijinhos