sexta-feira, junho 12, 2026

E foi a 10 de Junho...

 

Fonte da imagem: https://www.sulinformacao.pt/2026/06/10-de-junho-seguro-defende-paz-direitos-humanos-e-relacao-de-equilibrio-com-aliados/

 

 

Do justo e duro Pedro nasce o brando

(Vede da natureza o desconcerto!),

Remisso e sem cuidado algum, Fernando,

Que todo o Reino pôs em muito aperto;

Que, vindo o Castelhano devastando

As terras sem defesa, esteve perto

De destruir-se o Reino totalmente;

Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.1


Este ano, Sua Excelência o senhor Presidente da República, voou e fez voar, uma catrefada de malta para uma ilha no meio do Atlântico, a ilha Terceira que como todos certamente bem sabeis é pertença do arquipélago dos Açores, com, quase de certeza, um custo brutal, tal foi o número de gente e meios para ali deslocados, para comemorar o 10 de Junho e depois discursou.

O discurso de Sua Excelência foi então, algo extenso, uns vinte minutos, algo entediante, sendo que a espaços o discurso de Sua Excelência foi muito bem. Passemos a escalpelizar, começo pelo que gostei; a alusão a vários escritores, citando-os, Vitorino Nemésio2, Natália Correia3 e Emanuel Felix4, andou muito bem Sua Excelência, primeiro em fazer menção a grandes escritores, num país medíocre em que se lê tão pouco, andou bem na escolha de escritores açorianos. Já quando faz alusão à Língua Portuguesa enquanto ponto de aproximação dos Continentes, deu-me vontade de rir, porque com o tristemente célebre, mais recente, Acordo Ortográfico, a nossa língua tornou-se numa coisa híbrida e bastarda, vendida pela chusma politiqueira, a nossa língua abastardou-se, sinal dos tempos provavelmente, podia aqui Sua Excelência ter dado um recado ao Governo, para que se reveja esta medíocre traficância, mas não, preferiu continuar a arengar.

Algo de que gostei, do celebrar da pátria e de Camões, gostei da quase aula de interpretação dos Lusíadas, a dada altura disse Sua Excelência que todos nos identificamos com Camões, descobrimos na sua obra uma referência com a qual nos identificamos, concordo com Sua Excelência, por isso comecei este texto com uma das estrofes do Canto III, que ilustra na perfeição, Portugal, este Portugal do qual Sua Excelência é Presidente da República. Também gostei que Sua Excelência tenha exaltado a nossa língua, a musica, a literatura e as artes, no entanto vi aqui um bocadinho de populismo, porque num país cada vez mais mais medíocre e ignorante, num país que tão pouca atenção dá às artes e à cultura, pareceu-me um pouco forçada esta alusão.

Gostei de ver Sua Excelência, numa espécie de recado ao agente imobiliário que faz de conta que é Primeiro-ministro, a esse e aos que se seguirem, que o longo prazo das decisões deve ser sempre exercido em detrimento do curto prazo eleitoralista, que tem sido a bitola desde 1980 pelo menos. Apreciei a alusão à autonomia dos arquipélagos insulares ilhas, fica sempre bem passar a mão pelo pêlo à rapaziada insular, e por aqui ficou o que gostei.

Vamos ao que não apreciei, para não variar, lá veio o discuso sobre o Mar mais a inefável e sempre eterna alusão aos descobrimentos, que são para mim a coisa pior que nos aconteceu, rematando Sua Excelência com a estafada saudade, por esta altura era hilariante ir vendo as caras das “entidades” sentadas no palco montado para a encenação, o enfado, uma senhora dormitava a espaços, enfim um bom exemplo do estado deste Estado.

Sua Excelência continuou a testar a minha paciência mas consegui, estoicamente, devo dizer aguentar, a alusão ao ponto estratégico dos Açores, leia-se Base das Lajes, a quase santificação da Nato, que em certa medida até concordo, não deve ser é desta actual Nato quase transformada em anedota e posta em causa por aquele títere do outro lado do Atlântico, nada nos garantindo que a seguir a este não virá outro ainda pior.

A seguir lá veio a ladainha costumeira de reconhecer as diferenças mais a diversidade depois veio a emigração os direitos humanos e tal mais a tolerância mais a protecção aos mais desfavorecidos, coisas que estamos cheios, isto porque querem fazer de nós, à força registe-se, um Povo racista, isto porque num país que investe tão pouco, quase nada, em lares, em cuidados continuados e paliativos ou em saúde mental, esta arenga soa mal.

Também apreciei pouco a defesa do sistema partidário, podre e corrompido como está, igualmente o sempre eterno, discurso dos “democratas” o ataque ao populismo, como se o não fossem todos em variados graus, do Esquerdalho, aos ultramontanos trauliteiros da Direita, simples populistas. 

Depois Sua Excelência iniciou a parte divertida do seu discurso declarando que o Estado e as empresas não perceberam que o o mercado de trabalho não recompensa o mérito e o saber, pois não senhor Presidente, há décadas que assim é, o Estado recompensa os sabujos, os vendidos e os parasitas, olhe-se para o SIADAP, perseguindo as pessoas trabalhadoras e pagadoras de impostos, quanto às empresas, enfim ele há de tudo, mas se puderem pagar menos raramente pagam mais.

Um pouco à frente remata Sua Excelência que Portugal precisa de uma cultura de confiança, porque diz Sua Excelência nos países que crescem de forma sustentada os cidadãos confiam uns nos outros e confiam nas instituições, pois acredito que assim seja senhor Presidente, mas este Portugal do qual o senhor é o mais alto magistrado o que se passa é o oposto. Só rir!

Concluindo, o discurso de Sua Excelência o senhor Presidente da Republica, foi oco, pontuado com os chavões do costume que andamos a ouvir há 50 anos da boca da laia de “democratas” de que faz parte Sua Excelência, nada de novo portanto e isto foi o 10 de Junho.

Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia


1https://oslusiadas.org/iii/138.html

2https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=276

3https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=261

4https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=32

 

 

 

 

sexta-feira, junho 05, 2026

A greve!

 

Fonte da imagem: https://executivedigest.sapo.pt/greve-geral-metro-de-lisboa-paralisado-desde-as-2300/

 

 

  

Vivemos dias de turbulência laboral, real e ou imaginada, desvalorizada e ou fomentada, um facto é indesmentível, a coisa anda um pouco abalada, trabalhamos demais, os que trabalham, pagamos demasiados impostos com salários de miséria, pior, enquanto trabalhadores, não temos verdadeiramente quem nos defenda, somos um bando de galinhas tontas, as mais das vezes, mais ocupados a encarniçarmos-nos uns contra os outros do que a defender-mo-nos como um todo, claro que, tal é óbvio, somos uma caterva de imbecis que se deixam manipular por uma turba muito bem organizada de tragalhadanças, falo é claro dos sindicatos bem como da cáfila politiqueira.

Para início de conversa, podem vocês pensar que sou contra os sindicatos, que sou contra as greves ou que sou contra a defesa dos direitos de quem trabalha, não meus caros, nada disso. Sou efectivamente contra «estes» sindicatos que temos, congregados em organizações quase mafiosas a que chamam centrais sindicais, que mais não são do que uma espécie de braços armados dos partidos politiqueiros a que estão ligados, subvertendo completamente o que devia ser uma defesa verdadeiramente acérrima, despretensiosa e apaixonada dos que trabalham.

Não sou contra as greves, entendo perfeitamente as greves, apesar de só ter feito greve uma vez na minha já longa procissão laboral, no sentido contrário o agente imobiliário que faz de conta que é Primeiro-ministro, parece não ter a noção daquilo que é a essência da greve, declarou então o senhor Montenegro “...a greve passou apenas por prejudicar a vida de muita gente”, eu sinceramente fico estupefacto com estes tipos, ainda por cima o Primeiro-ministro, dizerem imbecilidades desta monta, porque o objetivo estratégico da “greve” é precisamente causar transtorno, incómodo e desestabilizar, por forma a que a carneirada desperte do torpor, o que já se devia ter percebido é que neste pardieiro chamado Portugal, o povaréu anda demasiado embrutecido, sendo que nada disto funciona, até porque como já disse acima, os sindicatos são antes do mais agentes manipuladores orientados por interesses partidários, ainda assim é assustador que um Primeiro-ministro, mesmo que seja o actual, não perceba que a “greve” é um dos custos da Democracia, como tal é assim que tem de ser entendida.

Quanto à defesa dos direitos de quem trabalha, sou absolutamente favorável a uma defesa acérrima dos direitos de quem trabalha, infelizmente por cá defende-se pouco, começando por nós próprios os que trabalham, aquelas que deveriam ser preocupações inerentes à condição de quem trabalha, muito se enche a boca com o trabalho, a produtividade e quejandos, mas são só balelas, porque ao trabalho dá-se pouco valor, quer-se é escravos, quer-se é mão de obra barata e descartável, paga-se muito pouco pelo suor daqueles que sustentam isto tudo, chora-se cada tostão, inventam-se mirabolantes estratégias para enriquecer os espoliadores, mudam-se regras a meio do jogo, vence a trapaça e a trapalhada, “o país está a trabalhar”, vociferou aos quatro ventos a senhora Ministrado Trabalho e da Segurança Social, pudera, com os ordenados miseráveis que temos fazer greve é um luxo cada vez menos ao alcance de quem trabalha.

Dito isto, não faço greve, não sou sindicalizado, mas defendo os dois princípios, não defendo as greves porque são, sem prejuízo de por vezes defenderem valores de decência, manifestações de vontades partidárias que manipulam e subvertem os verdadeiros interesses de quem trabalha, estas greves à lusitana, com muita barulheira e slogans do século passado que já nada dizem a ninguém não passam de farsas e vamos ser honestos, o que é que uma greve conseguiu, alguma vez, realmente em Portugal? Eu respondo, “NADA”, absolutamente nada. Quando é que eu faria greve? Quando os sindicatos realmente representarem os trabalhadores, quando uma greve for para partir isto tudo, lançar fogo a esta cloaca de imundice chamada Portugal, como isso nunca irá acontecer estou tranquilo.


P.S. - Quanto aos distúrbios da passada Quarta-feira, fiquei admirado com a algazarra, dar porrada em ganzados esquerdalhos não é lá grande feito, gostaria de ver essa atitude proactiva da PSP aplicada a outras faixas da sociedade esses sim perigosos, mas nesses não se toca, nos bandalhos parasitas e demais escumalha que por aí abunda, é mais fácil bater em miúdos e miúdas charrados, que a serem culpados de alguma coisa é de serem um pouco parvos e mal educados, para além de terem tido o azar de ter nascido nesta choldra chamada Portugal.


Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia


sexta-feira, maio 29, 2026

66 anos e 11 meses...

 

Fonte da imagem:https://jtm.com.mo/lazer/ze-povinho-cumpre-150-anos-representar-povo-portugues/

 

  

A idade da reforma subiu, novamente, não há emigração que nos salve, estranho, porque nos têm dito que os emigrantes são excelentes, descontam muito e salvam a Segurança Social, portanto das duas uma, ou essas afirmações são uma grande patranha, que é o que acredito, ou os emigrantes, os muitos milhares que cá estão não descontam porra nenhuma em montante que sirva para salvar o que quer que seja, ah e não me venham com a patranha da expectativa de vida, sim porque a despesa que o Estado tem com os velhos, é absolutamente miserável, como se pode ver pela falta de lares, de instituições de cuidados continuados e paliativos, sendo que os vários governos ineptos das várias cores partidárias que desfilaram pelos corredores do Poder, nos últimos 40 anos, nada fizeram para alterar uma realidade que há 40 anos já se previa, o envelhecimento da população, ainda que eu acredite que devido à muito fraca qualidade dos políticos que passaram pelos governos dos últimos 40 anos, pouco havia a fazer.

Aqui chegados, temos então a excelente notícia dos 66 anos e 11 meses, - trabalhar até morrer – disse-me um amigo hoje, certamente não errou, é mesmo isso, porque a rapaziada da minha idade, já não vai chegar aos 80 ou 90, não, vai morrer muito antes, atacados pelas doenças modernas desta sociedade neo esclavagista, o esgotamento, os cancros, as doenças mentais e o mais que se queira vão seguramente limpar a maioria de nós muito antes de termos tempo para desfrutar os prazeres, se existir algum, da reforma.

Isto se neste pardieiro a que chamam, por enquanto, Portugal, esta choldra efectivamente muito mal frequentada, as instituições conseguirem funcionar por muito mais tempo, tendo em conta que a maioria está à beira do caos, a Saúde é uma desgraça, só se vai segurando mercê de quem lá trabalha e faz milagres, isto com tudo o que de menos bom se possa dizer sobre o SNS, a Justiça é uma anedota, uma completa anedota, a autoridade do Estado é outra anedota, no terço do país encostado à fronteira essa autoridade à muito que deixou de existir, nos aglomerados urbanos, quer em condomínios de luxo quer em bairros sociais, várias minorias de essencialmente elementos parasitas, fazem o que querem, estão acima da Lei, no meio de toda esta surreal trapalhada, estamos nós os pobres diabos que terão de se arrastar até aos 66 anos e 11 meses para pagar esta porcaria toda.

Entretanto enche-se a boca com a palavra Democracia, coisa que cada vez menos se pratica, tristes com esta existência vil e apagada, lá vamos carneiramente seguindo o rebanho, a trupe de mortos vivos que somos, já não reage, encolhe-se, já não protesta, tolhe-se, assim descrentes buscamos salvação, duvido que a haja, em santinhos e santinhas, sebastiões e outros aldrabões, para continuarmos a trabalhar até morrermos, ou até ficarmos tão doentes que precisemos de cuidados, que não existem, porque este Estado falhado preocupa-se com essencialmente duas coisas, encher os bolsos à escumalha, apetece dizer bardamerda este Portugal, passar bem!

Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia

sexta-feira, maio 22, 2026

Visto prévio…

Fonte da imagem:https://tvi.iol.pt/noticias/inteligencia-artificial/tdc/tribunal-de-contas-utiliza-ia-para-avaliar-risco-e-melhorar-contratacao-publica/20250203/67a0a4eed34e3f0bae99f68e

 

 

Portugal entrou há umas décadas numa espiral de bandalheira, da qual, suspeito que não exista retorno, a comprova-lo está a legislação recentemente alterada e aprovada, pelos partidos do costume, aqueles que há 50 anos repartem a parte de leão da teta do Estado, PS e PSD, apesar de o PS, como de costume, quando está na oposição, fazer o papel de “virgem ofendida”, deixando passar a legislação, mas pedindo que a legislação seja discutida na especialidade.

Mas afinal o que é o tal “visto prévio”? O visto prévio1 é o acto de permnitir um contrato, após o mesmo ter sido analisado no âmbito do processo de fiscalização prévia pelo Tribunal de Contas. De acordo com a Lei de Organização e Processo do Tribunal de Contas, cabe a esse tribunal especial fiscalizar com a devida antecipação a legalidade e cabimento orçamental os actos e contratos de qualquer natureza que sejam geradores de despesa ou representativos de quaisquer encargos e responsabilidades, diretos ou indiretos, para as entidades públicas, no decurso desta fiscalização, o Tribunal de Contas identifica desconformidades dos actos praticados com a legislação e o regime financeiro em vigor, que têm dado origem a correções de procedimentos por parte das entidades fiscalizadas, ainda durante a instrução dos processos, a recomendações formuladas pelo Tribunal, bem como a recusas de visto.

Na anterior legislação ficavam dispensados de fiscalização prévia alguns contratos abaixo dos 750 mil euros, sem IVA, sendo o limite de 950 mil euros quando o valor global dos actos e contratos que estejam ou aparentem estar relacionados entre si. Basicamente o visto prévio encerra em si o objetivo de verificar se os actos, contratos ou outros instrumentos geradores de despesa ou representativos de responsabilidades financeiras diretas ou indiretas estão conformes às leis em vigor e se os respetivos encargos têm cabimento em verba orçamental própria, bem como verificar, que todos os actos enumerados anteriormente observam os limites do endividamento e as respetivas finalidades, estabelecidas pela Assembleia da República, por palavras mais simples, impor algum limite à bandalheira desregrada que reina, claro que na prática, isto como muito bem temos visto cai em saco roto, porque a montante exceptuando esta fiscalização pouca ou nenhuma fiscalização digna desse nome existe, daí o regabofe.

A actual legislação irá desonerar a necessidade de visto para contratos até 10 milhões, está pois visto o que vai acontecer, o agente imobiliário que faz de conta que é Primeiro-ministro, propicia desse modo um ainda maior “fartar vilanagem”, pois se com o visto prévio, isto é o que é, imaginem o que será doravante, mais do mesmo, dirão vossas excelências, mas pior, agradeçam aos partidos que há 50 anos disputam a trafulhice politiqueira, agradeçam ao PSD e ao PS, por mais uma grandiosa machada na Democracia, na ética e na decência.

Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia

1https://www.tcontas.pt/pt-pt/Jurisprudencia/FixacaoJurisprudencia/ProcessosFiscalizacaoPrevia/Pages/sintese-fisc-prev.aspx

quinta-feira, abril 30, 2026

Quando os porcos triunfam

 

Fonte da imagem:https://www.bertrand.pt/livro/o-triunfo-dos-porcos-george-orwell/24575768
 
 
 

Era uma vez, no tempo em que os animais falavam, não que hoje não continuem a falar, ele há vezes é que não os percebemos, uma família de porcos, que viviam numa casinha numa rua normal, não numa pocilga, mas podem argumentar que se calhar a maneira como eles tratavam a casa fazia da mesma uma verdadeira pocilga, ainda assim prosseguindo, ora naquele tempo em que como já se disse os animais falavam, os porcos, que parece que não são todos iguais, dizem, e eu acredito, viviam felizes.

Eram um nadita avessos ao trabalho, preferiam receber o RPI, o famoso Rendimento Porcino de Inclusão, um montante que El-rei Leão, dispensava aqueles animais que tinham menos possibilidades, os porquinhos estavam habituados àquela teta, de quando em vez tinham de ao IFP, o Instituição de Formação Porcina, onde faziam de conta que aprendiam qualquer coisa para se “integrarem”, diziam as Corujas que eram os pássaros mais sábios, alcandoradas nos seus poleiros viviam destas coisas dos institutos e assim, mas meus senhores, os porcos são muito especiais, uma espécie única, tem-se em muito alta conta, dizem que são diferentes, enfim, no tempo das fadas era assim que as coisas se passavam.

Um dia veio à cidade um pequeno rato do campo assustadiço, estava só de passagem, escolheu aquela rua, onde aquela família de porcos vivia, viera para passar uns dias, depois seguiria viagem, mal sabia ele, os porcos, faziam festarolas até altas horas, grunhiam alto como se fosse dia, sem querer sequer saber dos outros animais que pela manhã tinham de ir trabalhar, coisa que os porcos não faziam, era um fartote, para além disso nos tempos livres brigavam uns com os outros, quase sempre a desoras já depois de estarem bem bebidos, volta e meia lá vinha a roda dos guardas d’el Rei, o resultado era sempre o mesmo, grunhiam que se fartavam, tinham um linguarejar de carroceiro, proferiam os piores dos impropérios, ameaçavam tudo e todos, entretanto lá acalmavam, durante o dia, como estavam a dormir não se dava por eles, o pobre do rato do campo estava apavorado.

As coisas que via, ao pobre rato chocavam-no, uma casa onde se juntavam 20 ou 30 porcos, onde ninguém fazia coisa nenhuma, excepto, o tráfico de bolota que naqueles tempos dava muito dinheiro, que coisa aquela, como podiam aqueles porcos agir daquela maneira, seriam todos os porcos assim ou eram só aqueles? O pequeno rato do campo ficara mesmo transtornado, ao Diabo aquela pocilga, ao Demo aqueles porcos, sairia dali o mais depressa possível, não queria nada com porcos, animais avessos a viver em sociedade, animais racistas que desprezavam todos os outros animais, eram uma vara de arrogantes e malvados.

E assim foi, uma manhã fria, o ratinho aproveitou que ninguém estava a ver e fez-se à estrada, jamais voltaria a cair na esparrela de ir viver para onde houvessem porcos, animais sem regras, sem tino nenhum, malcriados e indolentes. Era assim nos tempos em que os animais falavam, hoje caro leitor espero que esteja tudo diferente, incluindo os porcos, cuido até que já não existam, não sei se todos os porcos são assim, mas aqueles eram, e é apenas desses que posso falar – escreveu o ratinho do campo no seu diário, onde cuidadosamente tinha apontado tudo, para memória futura, as horas das festarolas, aquele porco convidado que insistia em vir fazer as necessidades ao terreiro perto da casa, ao invés de fazer em casa, o barulho noturno, as bebedeiras, a música em altos berros às horas de sono dos outros animais, tudo estava registado no seu diário, um livrinho de capa azul, que guardava ciosamente, para mostrar aos outros ratitos como triunfam os porcos.


P.S. – Caro leitor, espero que tenha gostado deste conto do tempo em que os animais falavam, é apenas ficção, felizmente no Portugal em que vivemos não temos “porcos” como estes, espero que nunca tenham de passar por algo como aquilo que o pobre ratito do campo teve de passar, termino com aquela bela frase do extraordinariamente actual livro de George Orwell, “O triunfo dos porcos”1.

« Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros»


Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia

1https://www.bertrand.pt/livro/o-triunfo-dos-porcos-george-orwell/24575768


sexta-feira, abril 24, 2026

País está melhor

 

 Fonte da imagem: https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/luis-montenegro-defende-que-reforma-laboral-e-fundamental-para-salarios-dignos

 

  

O senhor Montenegro, vocês conhecem-no com certeza, aquele rapaz que é agente imobiliário, que faz de conta que é Primeiro-ministro desta gaiola de malucas a que chamam Portugal, um rapaz com tanto carismo como um queijo flamengo deixado ao Sol de Verrão, ora foi esse senhor que declarou recentemente durante a cerimónia que assinalou os dois anos da sua tomada de posse, enquanto faz de conta que é Primeiro-ministro,
talvez galvanizado pelo ambiente luxuriante do jardim da residência oficial em São Bento, que,“hoje o país está melhor e os portugueses também”.1

Ó senhor Montenegro, deixe-me perguntar-lhe, o senhor vive em que país? Seguramente não será no mesmo em que eu vivo, porque o país onde eu vivo, Portugal, não está melhor, nada mesmo, e os portugueses, isto é, a grande maioria não está mesmo nada melhor, bem antes pelo contrário. Eu percebo que o senhor Montenegro tem de fazer de conta, como os anteriores primeiro-ministros fizeram, todos disseram as mesmas barbaridades e falácias, no entanto no momento em que vivemos, e está bem à vista de quem queira ver, Portugal, pelo menos o Portugal em que eu vivo, está à beira de caos.

Entre turistada e emigralhada, o país soçobra alegremente, as instituições, dimensionadas para uma realidade estão assoberbadas, olhe-se para a Saúde, um caos sem fim à vista, olhe-se para a Educação, entre gente que não fala uma palavra em português, crianças com problemáticas de toda a ordem que “fugidas” do país de origem onde não há resposta aportam aqui entupindo completamente aquilo que já era uma triste realidade, falo do ensino especial e das necessidades especiais, mas isto ninguém fala nem discute, somos um país de cariz humanista, enquanto isso tal como a banda do Titanic continuamos a tocar enquanto paulatinamente o navio afunda.

Nos aeroportos é o caos, nos serviços de controlo de passageiros, outro caos, os serviços de emigração uma barafunda incomensurável. A Justiça é uma bandalheira pegada, tribunais a cair de podres, falta de recursos e meios, num estado de barafunda nunca visto. Quanto ao resto é o que se vê, um poveco torpe e cada vez mais abandalhado, o que aqui aporta também não ajuda, trazem hábitos ainda piores do que os que já cá estavam, tudo junto temos uma bela de uma salada russa de mediocridade e bandalheira total.

Dos portugueses que estão melhor como diz o senhor Montenegro, só vejo os do costume, a elite trapaceira politiqueira mais os seus cães de fila e no outro extremo da escala a elite parasita subsídio dependente, uns e outros singram e medram mercê da cáfila de quase escravos que se arrastam um mês inteiro, em empregos com salários miseráveis onde para ganhar dez tostões de mel coado se têm de andar 10 ou mais horas a labutar para depois ter o suficiente para pagar contas e engordar os traseiros das elites.

Portanto meu caro senhor Montenegro, findo como comecei, a perguntar-lhe, em que país vive o senhor? Certamente não será Portugal, pelo menos não o Portugal de quem trabalha, o senhor vive com toda a certeza no Portugal, dos bandalhos, dos arruaceiros tabardilhas, dos falcatos energúmenos mais dos parasitas sociais que tudo tem à borla e ainda se queixam. Senhor Montenegro, afinal em que país vive o senhor?

Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia

  

1https://cnnportugal.iol.pt/governo/primeiro-ministro/montenegro-admite-os-ultimos-dois-anos-foram-intensos-mas-garante-que-hoje-o-pais-esta-melhor-e-os-portugueses-tambem/20260402/69ce8970d34edcee7c629b5f

sexta-feira, abril 17, 2026

“País é muito bom no improviso”1

 

Fonte da imagem:https://www.mapsofindia.com/world-map/portugal/ 

 

  

Foi, Sua Excelência o senhor Presidente da República, que proferiu a frase que faz o título do artiguelho que hoje vos trago. Curiosa avaliação e atempada também, o caro Presidente demorou apenas uns 40 anos a chegar a esta conclusão, que é o tempo mais ou menos que Sua Excelência o senhor Presidente da República, anda embrenhado com maior e ou menor empenho e notoriedade nos meandros da politiquice, conheci-o pessoalmente, ainda que vagamente, quando Sua Excelência o senhor Presidente da República era ainda apenas Presidente da Juventude Socialista.

Tudo neste país parece ser feito de improviso, “percepções” dizem os habituais sacudidores da água do capote, os mor desresponsabilizadores de todo um povo, que há décadas plantam impunidade, o menino partiu a janela, tadinho é novo e aquele vidro estava mesmo a pedi-las. O “jovem”, agrediu o velho, tadinho, aquele velho trôpego estava mesmo a pedi-las, o “jovem” precisa de uma segunda oportunidade, até porque convenhamos como somos um país de velhos o “jovem” terá não só uma segunda, mas também uma terceira, quarta ou quinta oportunidades de massacrar mais uns quantos velhos e velhas, dado que essa peste grisalha, como um qualquer imbecil se lhes referiu, não aproveitam a ninguém, ora essa, tadinho do “jovem”.

Vamos improvisando, somos bons nisso, é verdade, o pior é que depois não há coerência, não há ligação de umas coisas com as outras e quando calha a coisa dar mesmo para o torto, é vê-los a rabear, o edifício aparentemente inexpugnável e seguro caí como um castelo de cartas soprado por ligeira brisa, é o infortúnio, clamam uns, outros da sina se queixam ou do fado, mas passada a tempestade, lá volta a “improvisança”, vimos isso acontecer umas vezes nestes últimos anos, na queda da Ponte de Entre os Rios, nos incêndios de Pedrogão e nos outros seguintes, no apagão, nas tempestades mais recentes mais no que se queira, quando a porca torce o rabo, parecemos baratas tontas, a coisa no papel, parece sumpimpa, ele são chefes e doutores, polvilhado com coronéis e majores, mais autoridades disto daquilo e daqueloutro, muitos carros a gastar combustível, muita rapaziada com boinas enfiadas na caximónia, alguns, muitos, parece que tem um rato morto em cima da cabeça, muitos coletes de cores berrantes, mas tudo espremido, é só improviso, é a carolice que vai compondo o ramalhete, mas infelizmente isso só por si não chega.

Pior, os governos procedem igual, improvisam, vão reagindo, a uma medida pateta sucede-se outra ainda pior, a uma legislação cretina vem outra ainda pior, improvisam na saúde, na faz de conta da justiça e na comédia da educação, somos de facto muitos bons a improvisar, e tão bons somos que improvisámos um país, Portugal até pode parecer que é um país, mas não é, somos um improviso, um arremedo atamancado daquilo que poderia ser um país, ah e quando dá para o torto, nada como enfiar um ar compungido aparecer nos ecrãs, numa daquelas conferências que passam nos canais todos, declarando que assumimos os erros e já pedimos a demissão, pronto tá feito, passamos ao tacho seguinte para improvisar sobre outro assunto e siga o baile. Vá desmintam-me!

Quase tudo em Portugal, quando exposto a situações extremas padece de um atroz amadorismo, lá está, improvisamos. Já a impunidade, a desresponsabilização e a perpetuação de hábitos de parasitismo social e mediocridade são levados com muita seriedade e superior planeamento, somos bons a improvisar e somos óptimos a perpetuar a estupidez, o laxismo e a bandalheira, nesses campos estamos ao nível do melhor que se faz lá fora, isso claro está sem colocar em causa tudo o que temos de bom, o pastel de nata, a sardinha assada, a sopa da pedra, as migas e assim só por exemplo e não enfadar a audiência.

E é isto meus caros, Portugal é um faz-de-conta, uma ilha da fantasia, algures entre o improviso e o provisório, quase sempre mais para o definitivo, é a terra do regabofe e da bandalheira, da impunidade e do desculpar dos prevaricadores mais dos bandalhos, Portugal é um Estado falhado, uma cloaca de mediocridade, haverá sítios piores? Claro que sim, mas este poderia ser muito, mas mesmo muito melhor, não fora esta sina, de sermos tão bons a improvisar, e tão bons somos que até improvisámos um país.

Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia

1https://www.publico.pt/2026/04/07/politica/noticia/pais-bom-improviso-seguro-quer-planeamento-organizacao-2170436#