Este passado Domingo, houve toiros, o povo foi à praça garantir um pouco de “circensis” para as suas vidas, já que o “panem” está cada vez mais caro. Agradeçamos ao antigo romano Juvenal2, que vivo fosse teria seguramente estado por aqui no Domingo, regozijando-se por este estranho e bárbaro povaréu manter vivas algumas destas tradições da antiga Roma.
As corridas de toiros, evocam essa barbárie do circo romano, não me julguem contra as ditas, mas também não me julguem a favor, sou ribatejano é verdade, coisa que já não mais existe, esse Mundo feneceu há muito, no entanto, actualmente esse tipo de eventos diz-me pouco, o mundo dos toiros acho-o uma chatice, gosto dos rapazes da jaqueta e das suas façanhas, não aprecio nada toureio a pé e chateia-me o toureio a cavalo, dito isto, não estou aqui nem para condenar nem para endeusar a coisa, estou apenas para me divertir a escrever, deixo a luta dos radicais do contra, versus os radicais do a favor, para gente bem mais capaz do que eu.
As corridas de toiros, não se explicam, sentem-se, são uma coisa visceral e cultural, daí as extremadas posições que frequentemente causam. Pessoalmente tenho outra abordagem o que me interessa não é ver a corrida, aliás não entro numa praça para ver tal tipo de evento há décadas, o que me interessa é fauna.
Cá fora ia quente a tarde, faltavam ainda bem umas duas horas para as cinco da tarde, hora marcada para o início da tarde taurina, quando soarem os acordes que darão início às bodas de sangue que se lhe seguirão, encostei-me ao fundo do balcão do bar que costumo frequentar, um sítio bem catita, onde me sinto bem, local que frequento, com maior e ou menor frequência, talvez há mais de trinta anos, nestes dias de corrida, um grande balcão é colocado cá fora, para aproveitar os sequiosos aficionados.
Bem cedo se viam as senhoras e os senhores de almofada por debaixo do braço, para mais comodamente alaparem o traseiro no frio cimento das bancadas da praça, vou observando, a fauna taurina enxameia por ali, ganaderos, toreros e outros bonecos, aqui ao meu lado por exemplo está um bando de “bernardos marias e constanças”, aquilo a que na gíria se chama “agrobetos”, com um “dress code” a condizer, tratam-se todos por você, jogam todos ténis e assim, adoram cavalos e toiros, e festas na Golegã, cumprimentam-se apenas com um beijo, elas parecem todas sofrer de problemas de amígdalas dado que tem sempre vozes roucas, ou será do bagaço bebido às escondidas, não sei, mas é divertido – obrigado tio – ouve-se, - Francisca venha cá – atira a mamã agrobeta a uma fedelha agrobeta com ar irritante que se divertia a tentar desancar o poste de metal que segurava o chapéu de Sol, eles com ares mais de “agro labregos”, riem bebem gins e imperiais, ai que divertido os toiros, sempre se está com o povo.
Ali mais à frente, um grupo de rapaziada campónia, já de idade, botins de cabedal, boina na cabeça que quando não o inclemente disco solar queimar-lhes-á a careca, grandes partilhas, homens do antigo e desaparecido Ribatejo, bebem imperiais e trincam bifanas acabadas de fazer, asseguram o “panem” antes de irem ao “circenses”, e que boas são essas bifanas, vão por mim que de quando em vez as provo, se acaso calhar passem por lá e provem-nas.
Mais adiante um casal que regurgita “afición”, caminham quase pairando, chapéus à espanhola, ele com calça de cós subido ela de xaile e saia discreta justa, bem torneada a senhora, lá seguem, escondem-se atrás dos óculos escuros, na realidade abominam esta ralé mas este dia é especial, mais lá ao fundo, um grupo de rapaziada local, bebem com visível agrado, é do calor diz um, são aficionados, gostam dos toiros, mas gostam mais de cerveja, e do jantar bem regado que quase sempre fazem depois das corridas, esse é o verdadeiro fito.
Aos toiros vem mais para ser vistos do que para ver, elas mais eles, eles de peito inchado a caminhar lentamente outros coitados por causa da idade já só arrastam os pés, elas mais ou menos produzidas com mais ou menos maquilhagem, as corridas de toiros são uma, mais uma, feira de vaidades, olé, siga que o cornetim já sopra “às armas”, largam tudo, esvaziasse o grande balcão, bem como a maioria das mesas protegidas sob grandes chapéus que garantem a salvífica sombra redentora, hão de voltar, assim que o evento encerre, sequiosos, sedentos de mais “fiesta”.
Do lado de fora sentados nas mesas e encostados ao balcão, como eu, ficam poucos, uns não gostam daquilo, outros até odeiam mas não o confessam, outros ainda estão nas tintas gostam é de cerveja. Pessoalmente, o que mais gosto é de observar esta fauna, os agro betos labregos, mais os outros, os fanfarrões, os beberrões, as damas e os cavalheiros distintos mais os vagabundos, disputam-se olhares e atenções, mostram-se as roupas e as joias evocam-se viagens, cativam-se olhos com decotes arrojados e ou calças justas, escondem-se almas tristes sob a estúrdia de músicas sevilhanas e acordes de pasodobles, - olé, viva a festa - grita um já toldado pelos maus conselhos de Baco, esse igualmente malandro deus dos velhos romanos.
Que bela tarde de toiros eu tive sem sequer de lá sair, dessa arena regada a vermelho, sem sequer precisar de bilhete, fica-me barata a festa, divirto-me muito mais, rio-me a bandeiras despregadas, vou mais contente e descontraído quando o Sol começa a sair do firmamento, outro dia voltarei, para ver a fiesta.
Um abraço, deste vosso amigo
Barão da Tróia
1https://www.bertrand.pt/livro/fiesta-ernest-hemingway/15327886
2https://www.paxprofundis.org/livros/juvenal/juvenal.htm






