Fonte da imagem: https://sinapol.pt/historia-quadrilheiro/
Há muito, muito tempo, existiram os Quadrilheiros, eram uma espécie de polícias, há até quem diga que realmente são os percursores do que séculos depois seriam as forças públicas de segurança1, ao consultar antiquíssimos canhenhos tropecei nesta história de um desses Quadrilheiros, que hoje vou, para aqui, transcrever.
Reina, por aqueles dias, El Rei Dom João o Quarto de seu nome, pela Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar… Portugal recuperára a liberdade havia pouco tempo, a Restauração e consequente expulsão dos malvados castelhanos ainda dava brados e daria. Há época existia um afamado Quadrilheiro de nome Pimpão, que exercia o seu mester, a que estava por régia vontade obrigado, de forma algo requintada.
Corria o ando da Graça de nosso senhor de 1643, era dia de São Anastácio Pompeu, redentor dos anafados, Pimpão, percorria os caminhos redundantes da grande Praça onde por vezes se matavam toiros, eventual malta do PAN que leia isto, pá naqueles tempos era assim, dizia eu, Pimpão fazendo jus ao seu nome, mais parecia um pavão, andava por ali de peito inchado, com o chapéu de veludo preto ornado de plumas e fitas escarlates, na mão direita a vara, símbolo da sua autoridade, à cintura um chanfalho, espécie de espada curta, mais umas bugigangas, umas luvas de coiro, umas grilhetas e um pimeneiro para por na boca dos desbocados, debaixo do braço esquerdo um caderno forrado a couro, o tão temido caderno das coimas.
Ia quente a manhã, soprava um suão ligeiro, Pimpão rodava por ali, vara na mão, passo lento e estudado, peito cheio, botim ensebado a reluzir, pelas veredas iam e vinham carretas, carroças, seges, berlinas, landaus e diligências, era Sábado, dia de passeio, a malta andava doida por arranjar um sítio, entre as várias tabernas, botecos e estalagens de má fama e zurrapa, uma boa malga de feijoca com batata e pé de porco, era a loucura, os passeios herdados dos tempos dos avoengos romanos estavam pejados de carretas e carroças estacionadas em cima.
Alguns afoitos, com a mania da nobreza, revelando a displicência própria dos arrogantes, passavam sinais de proibição, que já os haviam garanto-vos, pisavam os traços contínuos que separam as vias, também existiam pintados a cal viva, é verdade acreditem, seges em excesso de velocidade atroavam os rodados de metal pelas pedras da calçada, até deitavam chispas, o que era um perigo naquele tempo de estio, se fosse hoje por causa dos incêndios ainda proibiam aquilo, pois que macadame e ou alcatrão ainda não existiam, era um regabofe típico de um Sábado ali pelas ruas que davam à real praça onde se matavam toiros, malta do PAN, temos pema é a História pá, Pimpão o Quadrilheiro a isto tudo era indiferente, ele andava ali de peito inchado, com apemas um designio, mostrar-se, como de costume, as únicas criaturas que invectivou, no meio daquela verdadeira orgia de crimes, prevaricações e contraordenações, foram uns pobres falcatos, os rejeitados da sociedade que por vezes pediam uma mealha, um tipo de pequena moeda de prata, daí advêm os termos “amealhar” e “mealheiro”, para guardarem o lugar para estacionar uma carreta ou landau, foi apenas a esses pobres diabos que o Pimpão resolveu fazer sentir o peso da sua botifarra, grande coragem, forte com os fracos fraco com os fortes, assim era Pimpão o Quadrilheiro Real, a manhã já ia longa, Pimpão sentiu um ronco, não trovejava, era antes a pança a pedir sustança, e pinga, Pimpão rodou os calcanhares e ala que se faz tarde, à procura do almoço que a barriga não tem culpa dos maus negócios da cabeça.
P.S. – A “estória” acima reproduzida, é só isso mesmo, uma “estória” fictícia de tempos idos, hoje duvido que um representante da autoridade do Estado, elemento das actuais polícias PSP e ou GNR, que hipoteticamente, andasse a patrulhar uma determinada zona, fechasse os olhos permitindo descarada e vergonhosamente o estacionamento abusivo de motos e carros em cima dos passeios, os excessos de velocidade e ou o desrespeito da sinalização rodoviária.
Um abraço, deste vosso amigo
Barão da Tróia






