sexta-feira, junho 12, 2026

E foi a 10 de Junho...

 

Fonte da imagem: https://www.sulinformacao.pt/2026/06/10-de-junho-seguro-defende-paz-direitos-humanos-e-relacao-de-equilibrio-com-aliados/

 

 

Do justo e duro Pedro nasce o brando

(Vede da natureza o desconcerto!),

Remisso e sem cuidado algum, Fernando,

Que todo o Reino pôs em muito aperto;

Que, vindo o Castelhano devastando

As terras sem defesa, esteve perto

De destruir-se o Reino totalmente;

Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.1


Este ano, Sua Excelência o senhor Presidente da República, voou e fez voar, uma catrefada de malta para uma ilha no meio do Atlântico, a ilha Terceira que como todos certamente bem sabeis é pertença do arquipélago dos Açores, com, quase de certeza, um custo brutal, tal foi o número de gente e meios para ali deslocados, para comemorar o 10 de Junho e depois discursou.

O discurso de Sua Excelência foi então, algo extenso, uns vinte minutos, algo entediante, sendo que a espaços o discurso de Sua Excelência foi muito bem. Passemos a escalpelizar, começo pelo que gostei; a alusão a vários escritores, citando-os, Vitorino Nemésio2, Natália Correia3 e Emanuel Felix4, andou muito bem Sua Excelência, primeiro em fazer menção a grandes escritores, num país medíocre em que se lê tão pouco, andou bem na escolha de escritores açorianos. Já quando faz alusão à Língua Portuguesa enquanto ponto de aproximação dos Continentes, deu-me vontade de rir, porque com o tristemente célebre, mais recente, Acordo Ortográfico, a nossa língua tornou-se numa coisa híbrida e bastarda, vendida pela chusma politiqueira, a nossa língua abastardou-se, sinal dos tempos provavelmente, podia aqui Sua Excelência ter dado um recado ao Governo, para que se reveja esta medíocre traficância, mas não, preferiu continuar a arengar.

Algo de que gostei, do celebrar da pátria e de Camões, gostei da quase aula de interpretação dos Lusíadas, a dada altura disse Sua Excelência que todos nos identificamos com Camões, descobrimos na sua obra uma referência com a qual nos identificamos, concordo com Sua Excelência, por isso comecei este texto com uma das estrofes do Canto III, que ilustra na perfeição, Portugal, este Portugal do qual Sua Excelência é Presidente da República. Também gostei que Sua Excelência tenha exaltado a nossa língua, a musica, a literatura e as artes, no entanto vi aqui um bocadinho de populismo, porque num país cada vez mais mais medíocre e ignorante, num país que tão pouca atenção dá às artes e à cultura, pareceu-me um pouco forçada esta alusão.

Gostei de ver Sua Excelência, numa espécie de recado ao agente imobiliário que faz de conta que é Primeiro-ministro, a esse e aos que se seguirem, que o longo prazo das decisões deve ser sempre exercido em detrimento do curto prazo eleitoralista, que tem sido a bitola desde 1980 pelo menos. Apreciei a alusão à autonomia dos arquipélagos insulares ilhas, fica sempre bem passar a mão pelo pêlo à rapaziada insular, e por aqui ficou o que gostei.

Vamos ao que não apreciei, para não variar, lá veio o discuso sobre o Mar mais a inefável e sempre eterna alusão aos descobrimentos, que são para mim a coisa pior que nos aconteceu, rematando Sua Excelência com a estafada saudade, por esta altura era hilariante ir vendo as caras das “entidades” sentadas no palco montado para a encenação, o enfado, uma senhora dormitava a espaços, enfim um bom exemplo do estado deste Estado.

Sua Excelência continuou a testar a minha paciência mas consegui, estoicamente, devo dizer aguentar, a alusão ao ponto estratégico dos Açores, leia-se Base das Lajes, a quase santificação da Nato, que em certa medida até concordo, não deve ser é desta actual Nato quase transformada em anedota e posta em causa por aquele títere do outro lado do Atlântico, nada nos garantindo que a seguir a este não virá outro ainda pior.

A seguir lá veio a ladainha costumeira de reconhecer as diferenças mais a diversidade depois veio a emigração os direitos humanos e tal mais a tolerância mais a protecção aos mais desfavorecidos, coisas que estamos cheios, isto porque querem fazer de nós, à força registe-se, um Povo racista, isto porque num país que investe tão pouco, quase nada, em lares, em cuidados continuados e paliativos ou em saúde mental, esta arenga soa mal.

Também apreciei pouco a defesa do sistema partidário, podre e corrompido como está, igualmente o sempre eterno, discurso dos “democratas” o ataque ao populismo, como se o não fossem todos em variados graus, do Esquerdalho, aos ultramontanos trauliteiros da Direita, simples populistas. 

Depois Sua Excelência iniciou a parte divertida do seu discurso declarando que o Estado e as empresas não perceberam que o o mercado de trabalho não recompensa o mérito e o saber, pois não senhor Presidente, há décadas que assim é, o Estado recompensa os sabujos, os vendidos e os parasitas, olhe-se para o SIADAP, perseguindo as pessoas trabalhadoras e pagadoras de impostos, quanto às empresas, enfim ele há de tudo, mas se puderem pagar menos raramente pagam mais.

Um pouco à frente remata Sua Excelência que Portugal precisa de uma cultura de confiança, porque diz Sua Excelência nos países que crescem de forma sustentada os cidadãos confiam uns nos outros e confiam nas instituições, pois acredito que assim seja senhor Presidente, mas este Portugal do qual o senhor é o mais alto magistrado o que se passa é o oposto. Só rir!

Concluindo, o discurso de Sua Excelência o senhor Presidente da Republica, foi oco, pontuado com os chavões do costume que andamos a ouvir há 50 anos da boca da laia de “democratas” de que faz parte Sua Excelência, nada de novo portanto e isto foi o 10 de Junho.

Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia


1https://oslusiadas.org/iii/138.html

2https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=276

3https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=261

4https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=32

 

 

 

 

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