segunda-feira, dezembro 15, 2008

A Caralhota

O pão é um dos antiquissímos alimentos a que o homem se tem dedicado de alma e coração, falamos dele na Mesopotâmia há cerca de 6000 mil anos, falamos nele no Egipto dos faraós, falam dele os Gregos, dizendo que deviamos desconfiar dos homens que não comem pão, vá lá saber-se porquê, coisas de Gregos.
O pão ocupa o lugar de honra da mesa, recordemos a casa portuguesa com o pão e vinho sobre a mesa, é um alimento de tal forma importante que ocupa tambem uma função importante na religião católica, o que é a hóstia se não, um tipo de pão, ainda hoje, apesar dos hábitos alimentares cretinos importados de outras paragens, pão contínua a ser um componente importante da alimentação do homem, e ele existe de tudo e de todas as formas e tipos de cozedura, ao pão ázimo kosher dos Judeus, até aquela coisa insalúbre das padarias lusas, mais fermento e água do que outra coisa, passando pela baguete pelo pão de forma e por aí adiante.
De trigo, de centeio, de milho de castanha e até de bolota, o pão é a reverência imediata da sacralidade da refeição, óbolo sagrado remeniscência dos tempos em que as refeições eram tempos do sagrado em que a família partilhava a dura existência da sobrevivência, elemento aglutinador de vontades e destinos, por causa dele, ou antes pela sua falta se fizeram guerras e revoluções, massacres e depredações, o pão é seguramente uma das maiores invenções do homem.
Por isso hoje resolvi falar-vos da CARALHOTA, um tipo de pão de trigo aqui da terra, a caralhota esteve quase esquecida, à morte, como está quase tudo o que significa tradição e antiguidade, os tempos modernos em especial os nossos, atiram com a maioria das coisas nossas da tradição e cultural para os quintos dos infernos, afogadas nas marés dos hip-hops dos raps e de outras imbecilidades cretinas que abraçamos sempre com a maior insensatez. Mas o que raio é uma Caralhota? O nome sugere uma incursão ao domínio fálico, Freud explicou isso tudo, no entanto a caralhota não tem nada de fálico, é um pequeno pão redondo, com cerca de 10 ou 15 centímetros de diâmetro, excelente para acompanhar todo o tipo de petisco e mesmo as refeições.
Reza a história que me contou, uma pessoa antiga daquelas que ainda guardavam as memórias dos lobisomens da lua cheia e das bruxas que nos atentavam às encruzilhadas, que às pequenas bolas de massa que sobravam de fazer o pão chamavam caralhotos, por graça e para não desperdiçar, coziam-se também, davam-se aos miúdos, bezuntadas de azeite e açucar, açucar loiro, não dessa coisa branca de hoje, moída e remoída, cheia de aditivos esquisitos.
Ora as pequenas bolas depois de cozidas por graça lhes chamariam caralhotas, e assim ficaram, feitas que eram na maioria das casas de Almeirim que tinham forno de lenha e coziam pão, coisa que foi desaparecendo, a caralhota é um excelente alimento, e deve ser pedido nos restaurantes da zona assim mesmo, pelo seu nome, Caralhota! Não é um pãozinho pequeno, nem uma carcaça, muito menos um pão de bifana, como já ouvi muito mentecapto e mentecapta pedir, é uma Caralhota. Se a minha amiga e o meu amigo pedirem uma Caralhota, toda a gente aqui na terra sabe o que é, não labora pois em erros nem enganos e vai servida ou servido do melhor que por aqui há, sim porque isto não é só sopa enfarta brutos, também tem outras coisas, como a singela e pecaminosa Caralhota, que faz a delícia dos petisqueiros. Experimentem assar chouriça, em uma boa aguardente viníca e comam-na com a fatias de caralhota, ou nos pratos com molho, usem a caralhota com o seu miolo sápido para ensopar o molho e depois me dirão. Grelhem uma boa fêvera de reco, sal grosso só a meio da assadura, entretanto, cheguem a caralhota aberta ao meio ao brazeiro para que lentamente toste um pouco, de seguida reguem-na com um bom azeite nosso, esfreguem bem com um dente de alho, por esta altura, a carne deverá estar no ponto, entremeiam-na entre a caralhota para ficar aconchegada e comecem lentamente a degustar, acompanhem com um tinto, ou branco da vossa escolha e depois contem-me histórias, qual hamburguer qual balhana, viva a Caralhota.

Um abraço, deste vosso amigo
Barão da Tróia

1 comentário:

Abril disse...

Isto foi escrito num dia em que estavas em jejum,para fazeres análises ao "Castrol"....

Um abraço