quinta-feira, outubro 26, 2006

2 Milhões

É daqueles números abstractos que nos deixa a pensar, dois milhões de pessoas vivem ou antes sobrevivem naquele país com menos de 1 Euro por dia, como é isso possível, tendo em conta que ainda há bem pouco tempo esse país era o paradigma do sucesso Europa, era o Oásis, que passou a Paixão de seguida a Choque e receio bem que chegue a Traque num instante, já que a coisa tem vindo sempre a decrescer, espera-se que atinja o zénite com o eflúvio estomacal sorrateiro e por vezes húmido a que se atribui o nome vernáculo de Bufa.
Dois milhões de pessoas nesse país vegetam, dormem à noite de barriga vazia, não vêem televisão nem compram jornais, não lerão estas linhas, creio até que se estão nas tintas para o orçamento de estado e para a Assembleia da Republica. Dois milhões de pessoas, choram, sangram e tossem, dói a barriga com a dor da fome, a dor da fome é uma dor sui generis, não falo do vulgarmente chamado ratito no estômago, não, falo numa dor que se instala fundo, que nos atravessa a alma e que dói, dói como nada faz doer, é impossível de descrever por palavras, quem nunca sentiu fome ao ler isto nem sequer sonha como é a dor, essa dor que alquebra e desalenta, tornando redundante e penoso até o respirar.
Nesse país que se orgulha das auto-estradas, do novo aeroporto de dez estádios para as moscas, é o maior campeonato de moscas, varejas e mosquitos do mundo, de comboios super hiper rápidos, da banda larga e da via verde, para esse país o que são dois milhões de pessoas com fome com carências, com pobreza extrema, tristes sem ilusões, caramba são dois milhões!
Nos discursos de circunstância não falam disso, porque nem sequer disso há consciência, nesse país que faz de conta que é rico, a preocupação é África, é a Palestina, é o Afeganistão é Timor é todo o sítio que dê para aparecer nos jornais e nas revistas, é gente muito religiosa e muito caridosa e muito preocupada em missionar. No entanto ao virar da esquina, no andar de baixo ou na porta ao lado, estão dois milhões de seres humanos que vivem abaixo do limite de pobreza e tão pouca gente se preocupa com eles, porquê?
Será porque não são pretos? Será porque são brancos? Será porque são Portugueses? Será que por serem portugueses devem ser ricos e estão a mentir? Será que sofre menos, quem vive em Massamá ou em Sanfins do Douro do que no Darfur ou em Ramallah? O sofrimento mede-se? Como? Quem mede o sofrimento, existe um sofridómetro?
Tanta pergunta sem resposta, e dois milhões de seres humanos nesse país que sofrem sem meios de subsistência, nesse país da Europa, da União Europeia, esse país onde tu e eu vivemos, esse país que é Portugal.

Um abraço, deste vosso amigo
Barão da Tróia

30 comentários:

francis disse...

Deixa 'pra lá. O importante mesmo é a demagogia, é saber falar bem e acompanhar a verborreia com um agitar de braços firmes e adequado!

A Sonhadora disse...

Olá, bom dia...também te desejo...
Obrigada pelas tuas visitas...
Um beijo da sonhadora

o alquimista disse...

Obrigado pelas visitas e palavras...deu-me opertunidade de vir ao seu espaço o que agradeço. e gostei de cá ter vindo. A elegância e inteligente forma de pegar nos assuntos encantou-me...
Vou ser visita assídua...

Forte abraço

eu mesma! disse...

Viver com menos de 1 euro por dia deve ser mesmo díficil. Acho que é daquelas coisas que não tenho bem a noção, tal como o jack pot do euromilhões, também não tenho a noção daquele dinheirão todo. Já divaguei...
Na relidade existe muito fingimento enraizado quando se vai pseudo ajudar necessitados de outros paises, desprezando os nossos.
Aqueles que me transtornam mais são os idosos de pobreza envergonhada. Pessoas que já viveram bem, que ficaram com umas reformas minimas e de quem a família não quer saber e lá vão vivendo sabe Deus como, tentando ter uma vida digna, com muita fome, mas sem pedir nada a ninguém.

Dae-su Oh disse...

2 milhões é muita gente, sempre disse que antes de fazerem campanhas para ir ajudar país x ou y, muitas das vezes nem 10% do valor total das ofertas chegam a essas pessoas, mais vale combater a nossa própria miséria.

Cristina disse...

Olá,
Hoje venho aqui fazer-te um convite especial. Criei um blogue para todos participarem, basta mandar-me uma foto do teu automóvel, e irei criar um "chain" dos pópós de todos os amigos. Vou fazer conta contigo!
beijinhu
:)

Anónimo disse...

Tens toda a razão , dois milhões lutam pelo seu dia a dia.
Mas o Governo não quer saber desses dois milhões de seres huanos, eles fazem parte da abstençaõ deste país, eles são numeros e não pessoas, eles são os tais que tentam pagar as contribuições e os pagamentos mensais com um esforço do caraças de um corpo que já não tem forças para fazer frente a um GOVERNO que não dão ponto sem nò.
Não me admira mesmo nada que o GOVERNO actual pense em fazer aumentos a torto e a direito que ainda vai fazer a vida mais cara a este dois milhões.
O que eu me admiro mesmo é que certa camada de portugueses , entre eles os ex-combatentes, estejam caladinhos demostrando o seu total apoio a tudo o que seja para lixar os que tentaram fazer a sua obrigação no ULTRAMAR, eu não calo , eles obrigaram-me a pagar o meu tempo de serviço de 63/66 com preços actuais para contagem de tempo de serviço e sinto-me lesádo quando repáro que gentinha com meses de serviço são reformádos com ele todo.
O deixa para lá como se diz nesta vida real de hoje é mesmo danáda mas quando a faca está nas nossas costas ai é que o busilis vai á fava.touaqui

ALEXIA disse...

Acabei de me sentir tão mal, logo hoje que eu pedi mimos (por nada) comparado com isto. Peço desculpa a estes 2 milhões.

Obrigada obrigada

e maisnão digo estou cheia de vergonha

Utzi disse...

Disseste grandes verdades neste texto. E disseste-as com convicção, com sentimento, com um grito, ainda que o não possamos ouvir. Pena que estes gritos mudos não cheguem a quem tem o "poder da mudança". Esses, não ouvem, não lêem, não sentem...

Beijos das nuvens

Pitucha disse...

É, de facto, impressionante!
Beijos

naoseiquenomeusar disse...

Como se podem sentir tocados pela miséria próxima quem tão distante está da realidade no terreno, quem vai ao terreno apenas protegido por um séquito de polícia e segurança?
Claro que não.
Bonito é dizer-se solidário com aquela pobreza distante, quase virtual para estas almas, porque sabem que imediatamente se lhes não pode assacar qualquer responsabilidade.
Mas a culpa é de nós todos.
Quantos de nós ajuda verdadeiramente o nosso vizinho de baixo?
E depois há um outro fenómeno a proliferar.
O da pobreza encapotada por crédito sobre crédito. Até quando?

Bom dia! :)

vero disse...

Passei num instantinho p te deixar um beijo!!! Voltarei c mais tempo p te "ler"*****

Sofia.S disse...

É triste e duro, muito duro.

Mas o que na realidade interessa é subir as taxas moderadoras.

Assim até pode ser que essas pessoas morram mais depressa e o numero passe de 2 milhoes para bem menos para depois o PM (palhaço-mor) venha dizer que o nivel de vida até subiu...

(desculpa se me excedi)

_:)

Jade disse...

Barão, as tuas análises são sempre tão certeiras que, às vezes, interrogo-me sobre a tua verdadeira identidade. É uma tristeza que o país tenha chegado a este ponto...
Fica bem!

Manel do Montado disse...

Companheiro,
Tens veneno nas palavras, mas é só daquele tipo anti-político. Vozes como a tua são necessárias e incómodas para esss castanhos retorcidos que nos dirigem.
Parabéns pela coragem e simplicidade na exposição da verdade real do ´país e não na "verdade" deles.
Um abraço

João Moutinho disse...

Uma característica do nosso país face aos seu congéneres nórdicos ou da Europa Central é respeitante à distribuição da riqueza.
Ou somos nós que apreciamos a desigualdade (mesmo que com toda a retórica em sentido contrário) ou eles a igualdade.
Isto tem muito pouca a ver com o neoliberalismo ou com o socialismo ou PREC.
Todos nós sabemos as batotas que se fazem para se receber reformas milionárias.
Por outro lado, quem mais faz barulho é quem mais consegue fazer-se ouvir. Não deve ser o caso dos idosos.
Bem denunciado.

Mixikó disse...

Barão...

Parece que te vejo em plena praça...cheia...uma multidão a ouvir-te...
vejo os olhares que denunciam essa realidade...
vejo as bocas abertas, mudas em protesto...
Mas vejo também, nesses mesmos olhares...a vergonha pelo silêncio...de nada fazerem...
vejo curvarem-se, perante ti...dono da verdade a que não conseguem fugir...
vejo uma chicotada de chuva forte que arrasta as cabeças dessa gente que te escuta...na tentativa de deixar entrar uma consciência perdida...

Ningué pensa aqui no próximo...que está a morrer de fome...só pensam nos de fora...coitadinhos...e os nossos de facto?

É mais fácil fazer que somos solidários, do que sermos mesmo...do que passar verdadeiramente à acção...
É o faz-de-conta constante...

Faz de ocnta que sou rico; que sou feliz; que a vida é cor-de-rosa; que nada me afecta;

E coitadinhosos dos
pobrezinhos...os nossos...são tão queridos mas tão sujinhos...e os de lá de fora...temos que ser solidários...como?
Não sei, mas diz que sim...

Enfin...beijos

Bia disse...

Sofridómetro... será que existe? Não! mas devia, pois há tanta gente que rebentava com a escala desse aparelho...
É mesmo muita pergunta sem resposta e muito poucas pessoas a interrogar-se...
Este post é triste, mas ainda bem que existe, é sempre muito bom não olharmos só para o nosso umbigo.

nene disse...

É muito triste!
Um beijinho:)

Quintanilha disse...

Será que alguém se preocupa com isso?
O Bush não ia mudar o estado das coisas naquele país?

musqueteira disse...

meu caro barão, a nossa capacidade de sofrer é de facto sempre crescente... até um ponto que nós próprios nem supomos. porem a espiritualidade dá-nos armas para suavizar essa "dor" ou um determinado "sofrimento". o que está errado, no meio disto tudo é que as pessoas teimam em olhar para o seu umbigo que supostamente o mesmo (muitas das vezes) se roi de inveja até da sua própria ausencia em sofrer!parece estranho, mas não é!até há ainda, aqueles que invejam a fome que um determinado próximo passou ou passa devido a querer atingir alguma notariedade profissional.
Á roda da fome muitos se sentam mas ninguem a quer partilhar.

Ari disse...

Achas que os nossos politicos se preocupam com isso ?

Só existem peixeiras, pensionistas, ex-combatentes na altura das eleições, depois é deixa-los abandonados à sua sorte.

E nós assistimos a tudo...calados !

...Impotentes !

Um beijinho

Casemiro dos Plásticos disse...

eles querem é tacho!

padeiradealjubarrota disse...

É sempre mais fácil de encarar a dôr à distância.

Chanesco disse...

Caro Barão

Provavelmente porque as contas de solidariedade abertas nos bancos, para prestar ajuda fora do país serão utilizadas perversamente o que dificilmente poderia acontecer internamente?
Vá-se lá saber porquê.

Cumprimentos raianos

xicoxperto disse...

A esses o sótráques diz: Não têm pão? comam os brioches da minha padaria (para não dizer os que ele faz eheheh)

aprendiz de viajante disse...

Um bom fds também para si. Agradeço as palavras sempre tão gentis.

Gosto do seu espírito crítico.

chuvamiuda disse...

........sem tirar nem pôr, é que está lá no ponto certo.........



P.S. Lê e divulga o meu convite.


Abraço e bom dia

Isabel-F. disse...

"...Será porque não são pretos? Será porque são brancos? Será porque são Portugueses? Será que por serem portugueses devem ser ricos e estão a mentir? Será que sofre menos, quem vive em Massamá ou em Sanfins do Douro do que no Darfur ou em Ramallah? O sofrimento mede-se? Como? Quem mede o sofrimento, existe um sofridómetro?
...."

Mais um Post fantástico. Estou contigo ...claro ...neste grito de revolta...

bom fim de semana
Bjs

tron disse...

Em Portugal existem mais de meio milhão desempregados e nem sei quantos esfomeados e o governo se está cagando, tenho a recomendação e se neão me engano o link dum vídeo dos Queen feito de propósito para live aid e passados 21 anos da brilhante apresentação dos Imperadores quer portugal quer o resto do mundo ficaram piores e o mais cuiroso é que a música nunca perdeu a sua actualidade embora os chefes do nosso país e do mundo sejam ignorantes oa ponto de ignorar a mensagem passada no vídeo em causa