segunda-feira, julho 23, 2018

Abel Salazar

Comemorou-se na passada Quinta-feira 19 de Julho o aniversário natalício de um dos grandes de Portugal, passaram 129 anos desde o nascimento, de um dos maiores génios da cultura e da ciência nacional, de seu nome Abel de Lima Salazar, o Salazar Bom, como a ele se referia um dos seus amigos, por oposição ao medíocre tiranete de Santa Comba.
Popularizou-se, mas pouco e só após o 25 de Abril de 1974, simplesmente como Abel Salazar, médico, cientista, investigador, pedagogo, conferencista, artista plástico e escritor, muitas foram as áreas por onde esta personagem singularíssima da vida portuguesa do primeiro quartel do século XX espalhou a sua genialidade, Abel Salazar é injustamente um dos nossos grandes heróis esquecidos, infeliz filho deste pardieiro de inúteis chamado Portugal que com tanto afinco esquece os homens bons e grandes para de igual modo recordar e enaltecer os trogloditas e medíocres, como se a nossa grande bitola fosse a singular mediocridade dos pobres de espírito.
É na Escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1915, aos 26 anos de idade, que conclui o curso de Medicina acabando classificado com 20 valores, prova cabal da sua genialidade, pois naqueles tempos os 20 valores só estavam ao alcance dos génios verdadeiros, hoje ao inverso, neste tempo dos Mestrados integrados e das licenciaturas de aviário, há por aí notas de 17, 18 e 19 que até dão dó, mas isso são contas de outro rosário.
Em 1918 é nomeado Professor Catedrático de Histologia e Embriologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, fundando e dirigindo o Instituto de Histologia e Embriologia dessa mesma universidade, publico artigos científicos de extrema relevância, enquanto investigador cria o método de coloração tano-férrico de Salazar, um processo de análise microscópica, que ainda hoje se utiliza em investigação, invenção que mais uma vez prova a sua genialidade.
Na sua “alma matter” académica fará ainda cursos versando sobre Filosofia da Arte, fará posteriormente conferências sobre Filosofia, desenvolvendo um sistema de Filosofia próximo ao da Escola de Viena. Foi o desenvolvimento e apresentação pública deste sistema filosófico que desagradou ao patético tiranete de Santa Comba e aos esbirros da Santa Madre Igreja, tendo sido a causa principal da sua destituição do lugar de professor universitário e de investigador.
A ditadura fez com Abel Salazar o que fazia de melhor, mentir descaradamente, assim através da imprensa que controlava totalmente, orquestrou uma campanha de difamação que leva à demissão de Abel Salazar em 1936, só voltando ao seu lugar de professor em 1941.
Antes porém Abel Salazar foi impedido de trabalhar, foi também impedido de viajar para o estrangeiro onde era bastante solicitado como conferencista, sendo inclusivamente um dos consultores da academia Nobel, no entanto o infeliz tiranete de Santa Comba vai isolar este homem genial, intrinsecamente apolítico, que como o próprio escreve; “…Esclareço que nunca fui político, toda a minha vida me ocupei unicamente da actividade intelectual.”
O grande crime de Abel Salazar contra o miserável Estado Novo e contra o tiranete de Santa Comba foi o de ser alguém que pensava, todos sabemos como tal capacidade horrorizava o tal tiranete, essa capacidade a que sempre se opuseram os tiranetes, os de ontem tal como estes de agora, foi pois a propiciadora da queda de Abel Salazar.
Abel Salazar foi um homem grande, no domínio das suas preocupações humanas e intelectuais, figuraram os problemas de ordem social e filosófica, de ordem política mas apartidária de ordem estética e literária. Foi um dos grandes de Portugal, felizmente em 1975 vários académicos ligados à Universidade do Porto criam o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, adoptando Abel Salazar como patrono desse instituto, vocacionado para a investigação científica.
A obra deste grande português está disponível para visita na Casa-Museu Abel Salazar situada em São Mamede de Infesta, pertença da Universidade do Porto. Saudemos pois a memória de um Grande de Portugal a quem muito devemos.

Um abraço deste vosso amigo


Barão da Tróia

sábado, julho 07, 2018

Em busca da UVA MIJONA

Diz-nos o excelente «Dicionário de Expressões Correntes», do injustamente esquecido Orlando Neves, que o dito «Ao preço da uva mijona» quer dizer «barato ou sem valor». Sendo que «Mijona» é uma variedade de uva que apresenta bagos de polpa aguada, moles e com sabor desagradável pouco prestável à cultura do vinho.
Estará por esta altura o dilecto leitor a cogitar, agitando as suas sinapses sobre o secreto intuito deste alucinado e medíocre escriba, ao trazer a terreiro tão pouco significante produto. Pois fique sabendo que a pobre, mal amada e rejeitada «Uva Mijona» é dos mais importantes e mais procurados produtos da economia nacional.
Parto de imediato para o esclarecimento de vossas senhorias, porque já detecto cenhos franzidos, sobrancelhas levantadas, os caros leitores estão roídos pela dúvida, cogitando quiçá, em pertinente dúvida, sobre a saúde mental deste vosso amigo escrevinhador, relevem, relevem o pobre discípulo das Musas, porque parco em qualidade, tenta por estes artificiosos meios, criar em vós alguma, creio pouca, curiosidade sobre o que ora aqui se escreve.
Então vamos lá ver, ao início abre-se a coisa, liga-se à parede e é uma torneira a deitar notícias, por vezes como as bobines ainda estão frias porque a onda bate na lâmpada e recua*, a coisa turva, mas depois lá aparecem as carantonhas macilentas de umas criaturas muito importantes que adoram falar sobre aquilo do que não sabem rigorosamente nada, neste caso de ”Trabalho”.
Em Portugal toda a gente ou quase toda, enche a boca com a palavra ”Trabalho”, há uns por aí que no entanto fogem dele, do Trabalho, como o Diabo da cruz, preferem o subsídiozinho mensal, no entanto da Esquerda trauliteira à Direita sacrista, ele é um não mais acabar de discursos, perorações, ditos mais dichotes, constatações, indagações até sugestões, que nos surgem em verdadeiras torrentes, em cascatas que quase nos submergem, versando o tema do ”Trabalho”, existe até uma coisa chamada Concertação Social, onde os interessados, Governo, sindicatos e representantes dos patrões, cozinham a receita para o ”Trabalho” ou antes para o valor a atribuir aquilo de que todos vivem, no caso, ao trabalho dos outros, pois nesta dita concertação, os concertados vivem em exclusivo do trabalho dos outros, sobre essa fonte de rendimento opinam e ditam regras, é de morrer a rir este país.
Ora nesse coito de concertados o produto mais procurado para ser o condimento essencial de um melhor e mais produtivo ”Trabalho” é a singela e aparentemente pouco atractiva Uva Mijona.
Senão vejamos, os Governos desunham-se para terem funcionários ao preço da Uva Mijona, aquela conversa da “geração mais qualificada”, da necessidade de mais doutorados, da necessidade de mais formação e de conhecimento, pois é tudo conversa é apenas um dar ar à boca mediático para encher jornais e telejornais, na verdade os Governos procuram, professores, polícias, enfermeiros entre outros ao preço da Uva Mijona, felizes ficam quando conseguem fazer um licenciado altamente qualificado trabalhar 35 ou 40 horas por mil Euros ou pouco mais.
As Câmaras Municipais e restantes órgãos autárquicos, despeitados pela atitude dos governos centrais, alinham pela mesma bitola, querem é funcionários a trabalhar ao preço da Uva Mijona, alguns, gente com muita formação a ganhar menos que uma senhora das limpezas, gente com qualificações que trabalha quase de borla em municípios e juntas de freguesia mercê daqueles programas muito úteis instituídos pelo serviço de emprego, a realidade é essa, eles andam todos a lutar pela Uva Mijona.
Os patrões, os empresários e restante súcia, também alinha pela mesma musica, na agricultura então o desespero é tanto que até já importam Uva Mijona do Paquistão, do Bangladeseh ou da Índia, choram cada cêntimo de que despendem para pagar salários, para eles tudo se resume a uma indexação do salário à produtividade sabendo nós, que, segundo nos dizem ela é baixíssima, dizem eles, sendo que muitos desses senhores, desses patrões e empresários viveriam no Mundo ideal se fossem os trabalhadores a pagar para trabalhar, “ó tempo volta para trás” suspiram muitos, aos tempos de antanho onde com grilhões e chicotes se apanhava de borla toda a Uva Mijona que se quisesse, ó belos tempos.
Por último os sindicatos, esses vivem num delicado equilíbrio, por um lado necessitam que haja cada vez mais Uva Mijona, é disso que vivem é disso que também se alimentam, no entanto têm de fazer parecer que querem acabar com a dita, por isso as encenações, mistificações, greves, plenários e manifestações, “panem et circenses” como disse há mais de dois mil anos o malandreco do Juvenal. Por outro lado os sindicatos não podem morder aos donos, que são os partidos políticos, nem querem estar de mal com os patrões, pois nunca se sabe o amanhã, é portanto deste delicado equilíbrio que vivem os artistas sindicais.
Em suma meus mui estimados leitores, a Uva Mijona, que a olhos menos esclarecidos passa por coisa reles, baixa e própria da ralé, na verdade é dos mais procurados e importantes produtos desta nossa economiazinha, o desdém com que a tratam é fictício, qual prestimoso e diligente prestidigitador todo aquele que fita a Uva Mijona com erótico desejo, desvia daí a atenção dos demais para que ele e apenas ele possa colher esse fruto.
Fiquem os meus caros leitores com a fundada certeza de que a importância da Uva Mijona, é hoje ainda maior do que noutros tempos, em que se trabalhava por meio tostão, desconfiem dos embelezados discursos que tecem loas ao saber, e sobretudo ao “Trabalho” , porque o que todos querem e procuram com afinco são coisas ao preço da Uva Mijona. 

*Roubado de forma vil e sem pudor da fabulosa rábula do saudoso António Silva no filme “Amenina da Rádio” de 1944.

Um abraço, deste vosso amigo
Barão da Tróia

segunda-feira, julho 02, 2018

E porque não, Museu do pífaro?

A estupidez humana, não tem mesmo fim tal como sugeriu um dia o velho Alberto. Quando julgamos que não é possível atingir um grau superlativo da mesma, lá aparece uma, ou várias, alimárias a provar quão errados estávamos, então quando o tema gira em torno do politicamente correcto e dos guardiães da novel cultura e da correcção histórica dos males do Mundo, podeis esquecer, é certo que virá por aí mais uma alarvidade.
A discussão fútil do momento, prenhe de académicos, sábios, sabões e sabonetes, deu já azo a inflamados artigos em jornais, com listas anexas de subscritores, pretos, brancos, verdes ou lilases, grupos de gente muito indignada, centrando-se a questão numa ideia, pateta diga-se em abono da verdade, de criar em Lisboa o “Museu das Descobertas" criação proposta no programa eleitoral de Fernando Medina, actual presidente da câmara de Lisboa, num daqueles arroubos da politiquice medíocre de que tanto gostamos.
Pessoalmente acredito que não precisamos de mais um museu para estar às moscas e fechado ao Domingo.
Pessoalmente acredito que o grosso do Mundo estará perfeitamente nas tintas se chamam a essa projectada intenção, “Museu das Descobertas", “Museu do Pífaro" ou “Museu dos gajos que foram de bote comprar caril,"quem eventualmente visitar esse museu, que nem sequer ainda existe, estar-se-á positivamente marimbando para o nome que lhe colocarem, porque isso é uma minudência pateta e patética, que não alterará nada neste Mundo.
Para dar um exemplo prático, fundamentando aquilo que afirmo, pego numa das informações que um dos grupos desses indignados apresenta para validar a sua pretensão, a saber, existe no Brasil um museu a que chamaram “o Museu Afro Brasil”, só o nome já dá para rir, mas pronto, poder-lhe-iam ter chamado simplesmente Museu do fliscorne, Museu da Mandioca ou ainda Museu do renhau e da cena, por exemplo, no entanto preferiram chamar-lhe “Museu Afro Brasil” o que nem acho bem nem mal, é um nome, pretenderam o quê com essa escolha? Chamar a atenção para a influência de populações de origem africana no Brasil, sim talvez seja isso, mostrar como as populações de origem africana são bem ou mal aceites no Brasil? Mostrar como é que essas populações vivem?
Certo é que essa grande comunidade de gente, apesar das suas origens africanas de africanos não têm nada, hoje são brasileiros, duvido sequer que aguentassem sequer um dia a viver em África, mas enfim, pergunto-me então, qual foi o efeito do nome desse museu na condição dos brasileiros de origem africana? Estão mais letrados, mais ricos, mas protegidos da segregação? Estão mais felizes, mais protegidos da pobreza, são mais valorizados e respeitados? Se as respostas forem afirmativas, projectem então um museu polaco do Brasil, um museu italiano, libanês ou alemão, já para não falar que um museu português Brasil também quadraria bem para ajudar ao reconhecimento e respeito por essas comunidades tão importantes para o Brasil.
Os académicos são extremamente necessários, os académicos são o tecido pensante das sociedades, no entanto acredito que ele há coisas com as quais os académicos deviam deixar de perder tempo, questões umbiguistas, perdidamente patetas que não nos conduzem a lado nenhum, antes criam abismos, perdas de tempo, cultivam a jactância arrogante dos auto propostos iluminados que se julgam mais iluminados que os demais, lançam raízes nefastas, modas da destruição da História, do revisionismo e do politicamente cretino.
Como eu gostava de ver cartas abertas de académicos com cem, com mil, com um milhão da assinaturas a condenar a fome, as reforma de miséria, os velhos abandonados, a podridão politica ou a corrupção, como eu gostava de ver cartas de académicos fulos, irados de raiva espumando da boca com paixão verdadeira, porque sentir também faz parte do ser humano me parece, se bem que isso não seja politicamente correcto, como eu os gostava de ver preocupados com a realidade de um Mundo podre, cheio de lixo, quase sem água, que por vezes me parece que lhes escapa.
Pá, quanto ao Museu, em projecto, chamem-lhe museu da cachupa com sardinha assada, museu da caneca das caldas de Bombaim sei lá, quem é quer saber disso para coisa alguma, o passado não mudará por causa de um nome, de uma perspectiva, de um conceito que certo ou errado queiram forçar, nem tão pouco servirá para mudar o futuro, por isso parem de perder tempo com idiotices patetas, como se o nosso tempo neste Mundo fosse eterno, tenham santa paciência, pá!

Um abraço, deste vosso amigo 
Barão da Tróia

segunda-feira, junho 25, 2018

SOMOS TODOS CAPAZES!

A semana passada ficámos a saber que há para aí mais uma associação cujas contas alegadamente serão tudo menos sérias. Envolvida nesta trapalhada está mais uma cara conhecida, filha de um figurão do aparelho politiqueiro nacional.
Tudo gente seríssima, tudo gente do mais fino recorte, bandalho sou eu, aliás em todo Portugal, existem apenas meia dúzia de bandalhos vigaristas, sou eu e mais cinco, somos os únicos, os restantes dez milhões são tudo gente do mais honesto que há.
Ora, sucede que, ao que consta aí pelos circuitos da comunicação social, a gaiata filha do tal figurão, se meteu a presidenta de uma associação, daquelas que pululam por aí qual cogumelos, onde a rapaziada desocupada faz figura, para não dizerem que não fazem nada, são os “embaixadores” disto e mais daquilo, das criancinhas do Longistão ou dos gatinhos carecas da Tretonésia tanto faz, interessa é andar por lá, ir botando faladura, ter acesso à massa e ir aparecendo.
Dessas associações 90% vivem de subsídios do Estado, esta que está agora na berlinda, parece que tem as contas mal feitas, pois a tal “presidenta” alegadamente escondeu as continhas, com que fim não se sabe, seguramente com a melhor das intenções, segundo rezam então as crónicas as ditas contas vão agora ser fiscalizadas, para apurar os factos e inferir de algum procedimento criminal que seja tido por necessário para por fim à prevaricação.
Em Portugal somos todos muito capazes, somos bestialmente capazes de roubar, desviar, esburgar e sonegar os dinheiros do Erário público, por esse país fora, abundam, associações, disto, daquilo e daqueloutro, SAD’s, clubes e demais agremiações todas eivadas dos melhores princípios, que em última análise se dedicam a sugar a mama da vaca do Estado, esse mirrada e esquálida vaca, quase sempre assolada pela inanição.
Raríssimas são as vezes em que uma qualquer associação não encerra dentro de si uma qualquer vaidade falcata e medíocre que leva ao roubo descarada e à apropriação indevida de dinheiros públicos, para fins privados, nos tempos que correm raríssimas foram as vezes que fomos capazes de por termo a esta roubalheira.
A coberto das crianças, dos desportos, dos deficientes, das mulheres, dos cães, dos pastéis de nata ou até dos chinelos de praia, milhares de pessoas espalhadas por esse país, metem a mão naquilo que não é deles, não falo dos carteiristas que infestam Portugal em especial Lisboa, falo claro está desta súcia de nada raríssimas e mui capazes avantesmas vigaristas que anda no mundo associativo.
Muitas vezes nestas traficâncias, somos capazes de descortinar, os compadrios da politiquirice, as figurinhas da roubalheira estão quase sempre ligadas aos politiqueiros, esses nobres gestores da coisa pública e ainda mais capazes vigaristas.
Nem tudo porém é mau, haverá seguramente gente honesta, poucos, o mais são damas e cavalheiros capazes de num ápice fazer esfumar milhares de Euros, gente que promove associações de deficientes, que se servem dos deficientes para encher o bolso, com peditórios e subvenções, clubes de empurra bolas que devem milhões ao Estado e que o mesmo perdoa.
Não admira pois que eles e elas sejam não raríssimas vezes de serem capazes de roubar descaradamente os dinheiros públicos. Ainda pior é a participação política, pois parece que a roubalheira descarada está no ADN dos partidos do tal arco da governação, nenhum dos três pode sequer apontar o dedo aos outros, todos os três são a expressão mais miserável do clima de impunidade e vigarice corrupta que se instituiu neste país.
Ele há gente muito capaz neste país, são capazes de tudo, excepto de serem honestos!

Um abraço, deste vosso amigo
Barão da Tróia

sábado, junho 16, 2018

Temos horror à memória!

- Vocês têm tanta coisa interessante em ruínas, porquê?
Esta pergunta fê-la um amigo, que não vejo fisicamente há imensos anos, tantos quantos têm a pergunta, apesar de falar de quando em vez com ele, abençoadas as maravilhas da tecnologia que permitem galgar os milhares de quilómetros que nos separam, continuamos amigos desde esse tempo ido do século passado em que passando por um velho convento em ruínas me fez aquela pergunta.
Não tive resposta para lhe dar na altura, encolhi os ombros e sorri, «Portugal é assim» talvez lhe tenha dito. Portugal convive mal com a memória, somos para além de um povinho manso, um povinho desmemoriado, logo condenado, logo à beira da extinção como de facto estamos.
As memórias, como o sabe qualquer um, são uma parte importante da pessoa, do ser que somos, não só as memórias próprias, como as memórias visuais dos locais, como também a memória colectiva de um povo que serve para o unificar. Infelizmente neste país o que mais se faz é destruir essas memórias. Vejam-se as nossas cidades, vilas e mesmo aldeias, arrasadas pela especulação imobiliária, descaracterizadas, transformadas em sórdidos subúrbios, mercê de uma corja de autarcas mentecaptos, acoitados pelo lema do progresso.
Ainda há uns tempos alguém me dizia a proposito de um desses medíocres miseráveis que destruiu a beleza e a memória de uma terra, “…não sejas assim o homem fez obra…”, respondi-lhe à moda do velho almirante com um bem pronunciado “bardamerda a obra”, pois neste país confunde-se muito o alcatrão e cimento a esmo com progresso, e progresso não é nada disso, progresso é qualidade de vida, o progresso é preservar as memórias o progresso são espaços verdes, o progresso é gente com decência, urbanidade e civismo, ao invés disto que por cá temos.
Quem hoje olhar para as localidades de Portugal não as reconhece, do ponto de vista da arquitectura, o que se nos apresenta é um nojo completo, o que até nos faz pensar porque ao que parece possuímos excelentes arquitectos, no entanto a construção que se faz é de miserável qualidade, sendo esteticamente medíocre, descaracterizando por completo as localidades, transformando tudo em subúrbios miseráveis, olho aqui por exemplo para a minha terreola onde a preservação foi quase zero e vejo uma enxovia miserável onde o disparate parece não ter fim.
Pude noutros tempos, viajar muito, ter um pai camionista permitiu isso, vi centros históricos bem preservados, apesar de terem sido bombardeados, de terem vivido duas guerras em pouco mais de quarenta anos, com gente a viver nesses locais, com turismo, vi memórias bem preservadas, vi ruínas conservadas com desvelo, comparo com o hoje vejo em Portugal, com muita tristeza constato que por aqui temos horror à memória, não só não a cuidamos, como tratamos de destruir o pouco que há na ânsia de sabe-se lá o quê.
Recentemente li alguns artigos em jornais, escritos por pessoas que se queixam por destruírem as memórias das suas cidades, Nova Iorque, Londres e agora Lisboa e o Porto, eram o palco das queixas de quem escreveu esses artigos, acusando o turismo, a ganância bem como a parvalheira generalizada de terem ou de estarem a arruinar as memórias dos locais.
Pois é bom que se saiba que essa lavagem à memória é algo que em terreolas pequenas como por exemplo esta onde habito tem décadas, desde que se instalou aquilo que chamarei “Síndrome da Lisboetice”, traduzindo por miúdos, ao invés de preservarem a construção, a traça típica e original dos locais, adaptada claro está à modernidade e ao bem estar deste século, para assim criarem elementos modernos mas diferenciadores, para atraírem visitantes, preservando a memória, revitalizando os centros históricos, o que fizeram os inteligentes autarcas por esse Portugal fora, caixotes, e mais caixotes de cimento, hoje a hashtag seria “#somostodosLisboa”, temos todos de ser muito modernaços de fazer muitos prédios, miseráveis enxovias que cairão ao primeiro peido que a Terra der, para sermos muito desenvolvidos temos de ter muitos prédios, muito cimento e alcatrão, para claro está deixar obra, às malvas a memória, viva o progresso, assim se obra em Portugal!
Neste processo de estupidez colectiva, criaram-se monstruosidades arquitectónicas, nos mais insólitos locais, mercê da corrupção que ainda grassa nas autarquias, verdadeiras escolas da corrupção nacional, construiu-se em todo o lado e de qualquer maneira, desde que fosse alguém importante lá da terra, destruíram velhinhos bairros inteiros para construir mamarrachos.
- Vocês têm tanta coisa interessante em ruínas, porquê?
Continuo sem conseguir dar uma resposta coerente à pergunta daquele meu amigo. Somos um povo avesso às memórias, queremos é esquecer tudo. Quem esquece o passado nunca terá futuro que preste, quem esquece a sua memória desvirtua a sua condição de ser pensante, mas como pensar dá muito trabalho, que pense quem quiser.

Um abraço, deste vosso amigo 
Barão da Tróia

sábado, junho 09, 2018

O Pitrolino

O actual Ministro, faz-de-conta, do Ambiente é uma figura que me causa profundo dó. Primeiro pela clara falta de preparação técnica, depois pelas tristíssimas figuras que o pobre homem tem feito. Recorde-se o seu desempenho na questão da poluição do Tejo, que não só não desapareceu, não desaparecerá mas que continua, quando o rio estiver completamente morto, quando toda essa excelente reserva de água doce estiver completa e irremediavelmente poluída, nesse dia talvez, alguém se irá lembrar do pobre Tejo, faço aqui referência a essa questão do Tejo apenas como exemplo do tratamento que Portugal dá aos seus recursos naturais, sendo também um excelente exemplo do estado dos cursos de água doce, que como muito bem deveriam saber é o bem mais raro, essencial e escasso do planeta.
Mas voltando ao senhor quase Ministro. Uma outra polémica, mais uma, esta com uma potencialidade enorme de se tornar num caso letal de envenenamento da ainda protegida costa Vicentina, falo claro está, da autorização para a exploração petrolífera ao largo de Aljezur.
Portugal é um país verdadeiramente fantástico, governado por seres saídos da maior incubadora de génios do universo, somos um país que anda quase sempre em contra ciclo, quando o Mundo faz «Zag», nós fazemos «Zig» e vice-versa. Quando no Mundo, pelo menos no mais civilizado, o paradigma dos combustíveis fosseis é colocado em causa, ainda que timidamente, o que faz Portugal, mercê de dois governos protagonizados por gente inteligentíssima, falo do actual bem como do anterior, duas súcias de indigentes intelectuais infelizes, que permitiram aos velhacos do petróleo licenças absurdas para esburacar o mar à procura de petróleo.
Ao povinho foi dito à boca cheia que “o projecto da Eni e Galp poderia “ajudar a reduzir o défice comercial”, notem que eles não mentem totalmente, ao contrário dos que nos governam, os senhores do petróleo são inteligentes, notem que na frase está uma palavra que traduz tudo e que faz toda a diferença, a palavra “poderia”, pois é bem verdade, o projecto de exploração poderia servir para trazer os tais milhões aventados, mas não trará, como não trouxe em nenhum lugar do terceiro Mundo, como Portugal, onde essas empresas rapaces e oportunistas se dediquem à exploração do petróleo, exemplos não faltam, da miséria que essa actividade trouxe aos povos.
Mas por cá não, por cá eles farão diferente. Esperem sentados. Os governos que deveriam servir as pessoas, servem-se antes das pessoas, pior é que as pessoas, embasbacadas como andam com novelas medíocres dos futebóis, das santinhas e do telelixo nacional, ao invés de se manifestarem, nem por isso, aparentemente estamos todos bem muito obrigado, isso é lá com eles, ou a frase mais estupidamente incrível ouvida amiúde, dita até à exaustão pelo mesmo povaréu bronco, “se traz progresso para a terra”, o problema é que progresso não tem de ser alcatrão e cimento, progresso não tem de ser miséria e porcaria em barda.
Pior é que isto tudo se passa num pardieiro miserável chamado Portugal, onde as energias renováveis são uma obscena negociata para chinês ganhar dinheiro, será que o senhor Ministro mexia nisso, não creio, porque depois de venderem o país ao desbarato os miseráveis governeiros ainda têm o desplante de dizer que tomaram a melhor das opções, sabendo nós que por exemplo só em bancos falidos, enterraram o suficiente para fazer 23 pontes Vasco da Gama ou seja poderíamos fazer uma ponte continua com 283 Km.
Vivêssemos nós no tempo da monarquia falida, fosse o faz de conta que é ministro do Ambiente um rei, o seu cognome seria DOM João “ O Pitrolino”, rei de Lisboa e chega, que o resto é do chinês, do angolano, do árabe, do inglês e das petrolíferas.

*O “Pitrolino” é uma figura da minha infância, exemplo da resiliência e capacidade empreendedora deste nosso povo, o Pitrolino chegava de carroça, mais tarde de carrinha, vendia petróleo, mais tarde vendia um pouco de tudo, de mercearias finas a petróleo, sabão e cotos de vela, era uma espécie de hipermercado em ponto pequeno que chegava às aldeolas perdidas, deixou por vezes de ser o “Pitrolino” para passar a ser o “Azeiteiro” o que vendia azeite e mercearias. Peço desculpa por comparar a figura nobre e digna do velho Pitrolino, a esta infeliz criatura que dizem ser Ministro do Ambiente.

Um abraço, deste vosso amigo
Barão da Tróia

sábado, junho 02, 2018

Ponto por ponto!

Esta semana que passou fomos agraciados com interessantes e esclarecedores informações sobre o genocídio nacional, sim em Portugal pratica-se há muito um genocídio, nada tem que ver com a eutanásia, aliás, esta catástrofe causa e causará muitas mais mortes que a eutanásia, chama-se condução automóvel, parece que não suscita nenhum alarde, não há iniciativas parlamentares, súcias de ratos de sacristia em manifestações labregas, declarações medíocres de grupelhos partidários, nada, quanto a isto “tasse bem” como sói dizer-se agora na modernidade.
O primeiro núcleo de informações prende-se com alguns dados sobre o sistema de Carta por Pontos. Quando este sistema foi, pomposamente apresentado e posteriormente colocado em prática, fui um dos que atribuiu ao mesmo o epíteto correcto, “palhaçada”, os dados que esta semana foram revelados, mostram que a minha avaliação está correctíssima, até o Presidente da Autoridade para a Prevenção Rodoviária o declara por outras palavras claro está, a minha avaliação pecou apenas por defeito, pois olhando para as estatísticas o sistema de Carta por Pontos não é uma “palhaçada” é sim uma “colossal palhaçada”, que mais uma vez deveria fazer corar de vergonha, governantes e governados, mas como uns e outros são a súcia medíocre que está à vista, tudo passa com uns esgares, uns encolher de ombros e depois como amanhã joga a selecção está tudo bem.
Ora em dois anos de estúrdia, ficámos a saber que apenas 59 criminosos da condução ficaram sem carta de condução, isto em 700 mil autos levantados, outros 157 perderam a totalidade dos pontos existindo ainda a possibilidade de o automobilista recorrer judicialmente e de o processo poder ser impugnado, podendo assim recuperar os pontos.
Posto de outra forma, o grandioso sistema de Carta por Pontos, que iria revolucionar as mentes das bestas automotorizadas que por cá habitam, que serviria para proteger, que serviria para ajudar a reduzir a desgraça que são as mortes na estrada, a impunidade e a falta de civismo, serviu para quase nada, um barrete colossal, mais um, enfiado pelos lorpas que habitam o paraíso dos asnos, também chamado Portugal, ainda não há muito diziam que os burros estavam em extinção, nunca tivemos foi uma tão grande e tão pujante população de gado asinino como temos hoje.
O tal sistema de Carta por Pontos é indubitavelmente mais uma barracada nacional, mais um exemplo acabado do laxismo e da impunidade com que se vive nesta terra de imbecis, os dados agora revelados, só provam essa realidade, seria interessante fazer umas contas simples, perceber quanto custam estes processos, quanto custa este tal sistema comparando esses custos com os resultados, seria interessante.
Os segundos dados que nos foram revelados estão constantes do relatório sobre a sinistralidade em 2017, estes quando comparados com os dados anteriores, revelam assustadoras discrepâncias, mais provam que o tal sistema de Carta por Pontos é apenas uma, mais uma inenarrável palhaçada.
Consultado o relatório, constatam-se 510 vítimas mortais, grosso modo 42 mortes por mês. Para vos dar uma ideia da verdadeira hecatombe que tais números representam, dir-vos-ei, que o pior ano de baixas para as tropas americanas em guerra no Iraque foi o ano de 2007, com 904 mortes, notem que são apenas mais 394. Notem porém que em 2007 a guerra estava descontrolada, com ataques de todo o tipo que vitimavam os soldados.
Daí para cá, as baixas de soldados americanos foram sempre menores que as mortes nas estradas de Portugal. Este facto deveria fazer com as pessoas que neste país são responsáveis políticos, parar e pensar, infelizmente não, infelizmente, neste reino do faz de conta, institui-se a carta por pontos e espera-se que a coisa ande.
Onde se morre mais é nas localidades e com bom tempo. Prova de que o cidadão nacional é um imbecil mais que completo. Um impressionante número de 92 mortes pertence a peões, atropelados por veículos, um número assustador, só para vos dar um exemplo, no mesmo ano de 2017, morreram 17 militares no Afeganistão, um dos países mais perigosos do mundo, onde se juntam, talibãs, Al qaeda e DAESH, nem esses três juntos matam mais que nós, os tristes imbecis automotorizados.
Resumindo, o que estes dados revelam é mais do mesmo, impunidade, laxismo, inépcia, ineficácia, pobreza de espírito e mediocridade generalizada. Ninguém sai bem da fotografia, governantes, governados, polícias e Justiça, o desempenho de todos, cada um com as suas motivações é manifestamente medíocre, é vergonhoso e é sobretudo patético ademais num pais com tantos problemas demográficos, termino dizendo que fazendo fé no relatório, um pouco mais de uma centena das vítimas mortais tem menos de 35 anos, o que volto a dizer deveria ser facto suficiente para nos encher de vergonha, pois parece que assim não é.

Um abraço, deste vosso amigo
Barão da Tróia