sexta-feira, julho 31, 2026

O abominável homem das Neves

Fonte da imagem:https://narodnatribuna.info/lists/s/yeti-story-adventures-of-the-abominable-snowman/
 

 

Era ainda madrugada, o radioso Sol só dali a umas boas duas horas despontaria, sentia-se o vento, frio, cortante, as rajadas perpassavam entre os montes e as serranias num continuo ulular, dava medo, a neblina era gelada e húmida, esperava-se porém um dia bonito, assim que o astro rei despontasse no horizonte, era sempre assim, as noites pavorosas e os dias excelentes, subindo ao monte do tanque, que afinal era uma piscina, mas que sempre que se quisesse voltava a ser um tanque, numa admirável manifestação milagreira, mirávamos em redor e a vista alcançava tudo, até se via o atrelado entregue ao amigo, cheio de tralha manhosa, estávamos afinal em Xangrilá, essa terra das maravilhas onde tudo é possível.

Entretanto toca o telefone, o abominável homem das Neves, acorda sobressaltado, boceja, espreguiça-se, enquanto a malvada maquineta debitava os pavorosos decibéis de uma musiqueta com um timbre metálico, firmemente empenhado em por cobro aquela cacofonia, o abominável homem das Neves, atende.

- Tá sim, fala Neves – ele abreviava o nome porque responder que era “o abominável homem das Neves” era um pouco para o comprido.

- Bom dia Neves – ouviu-se do outro lado da linha – fala Montebranco – ó Diabo era o Primeiro-monge, o Grão-vizir de Xangrilá, que quereria o homem a esta tão matinal hora, pensou o abominável homem das Neves.

-Ó Neves, pá, tou a ligar-te porque tens que ir esclarecer aquela trapalhada do tanque que parece que não é um tanque, mais o atrelado cheio de trampa perigosa, mais aquilo da declaração, ah e a empresa da dona Neves, pá fazemos assim, marcas uma conferência de imprensa, já temos o guião preparado, dás uma banho aos jornaleiros e tá feito…

- Mas ó PM, e se…

- Nada de hesitações, tá tudo preparado, levámos semanas a preparar esta porra toda, depois o Lama Huguinho vai à televisão por-te a mão por baixo, não te preocupes que eu não te deixo cair. Vais lá dizes umas tangas, compões o microfone pra ganhares tempo, pigarreiras, dás umas gargalhadas, mas lembra-te bem, não respondas a nenhuma pergunta que te façam, tergiversa, distrai a maralha, faz como te digo, ah e nada de improvisares, segue o guião pá!

- Assim farei grande PM – acrescentou o abominável homem das Neves.

- Muito bem, ah e fica atento ao telemóvel que posso ter de te mandar umas mensagens orientadoras, vai lá meu rapaz, eu acredito em ti, ah e não bebas nada que pode fazer-te mal – e desligou.

O abominável homem das Neves, ficou à nora, que raio de coisa havia de acontecer, mas pronto à hora marcada lá teria de estar, meter a cara de pau número um, tentar enganar a malta e pronto corações ao alto.

Acabada a conferência o abominável homem das Neves, foi descansar, estava contente consigo próprio, tinha feito uma muito boa figura, nisto lá toca novamente o telefone, era o PM novamente, não tinha descanso, que raio quereria o homem desta vez, já tinha falado com o Grande Líder do Mosteiro do Rato, com o Lama Lanzudo, também já falara com o Príncipe Regedor, que era o mais alto magistrado de Xangrilá, estava descansado, agora lá vinha o PM novamente, atendeu a medo.

- Tou sim, como vai o meu caro PM…

- Pá ó Neves, deixa-te lá de merdas – ouviu-se do outro lado, num tom irado – disse-te para seguires o guião e tu nada, resolveste armar em engraçado, foram só tiros nos pés, parecias o Arnaldo, - o ícone da selecção nacional de bilhar de bolso que é o grande desporto de Xangrilá, - pá ó Neves, foi só tiros nos pés pá, então vais dizer que desconhecias a Lei, logo tu que foste o chefe dos prebostes, ora porra pra ti pá, a partir de agora nem um pio, ficas calado, ouvistes bem – e desligou.

O coitado abominável homem das Neves, estava com os nervos em frangalhos, meteu umas cuecas, umas peúgas mais um calçonito, dentro de uma mochila e abalou, choramingante, para o monte, ia hibernar uns dias para lá, estava calor, bebia umas jolas, assava umas sardinhas e ficava de molho dentro do tanque que era uma piscina que afinal era um tanque e ao Demo isto tudo.

Todos os ministros ordináriamente são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e dicção pura, versejam em albúns de casas particulares, são perfeitos cavalheiros, e excelentes convivas, e adoráveis cortesãos. Mas não têm nem a ciência, nem o espírito, nem a dignidade, nem a elevação de carácter, nem a austeridade, nem o instito político, nem a experiência que faz o estadista. Excelentes num sarau literário, são nulos numa crise da pátria. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política superficial, política de expediente.

País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e patronato, por privilégio e influência de camarilha, é possível que possa conservar a sua independência?”1


Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia


P.S. – Ontem assistimos, quem quis e ou pode, a um degradante espectáculo, televisionado, um verdadeiro circo, prenhe de palhaçadas, anedotas e muita muita mediocridade, tanto do actor principal como dos que seguiram a comentar, a coisa em si é lana caprina, porque estamos habituados à governação de falcatos medíocres e trafulhas, o triste, o mesmo muito triste é ver o estado a que chegou este país, o estado a que chegou Portugal.


1Queirós, José Maria Eça, Da Colaboração no Distrito de Évora – I (1867), Lisboa; Livros do Brasil, 2000

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