quinta-feira, abril 30, 2026

Quando os porcos triunfam

 

Fonte da imagem:https://www.bertrand.pt/livro/o-triunfo-dos-porcos-george-orwell/24575768
 
 
 

Era uma vez, no tempo em que os animais falavam, não que hoje não continuem a falar, ele há vezes é que não os percebemos, uma família de porcos, que viviam numa casinha numa rua normal, não numa pocilga, mas podem argumentar que se calhar a maneira como eles tratavam a casa fazia da mesma uma verdadeira pocilga, ainda assim prosseguindo, ora naquele tempo em que como já se disse os animais falavam, os porcos, que parece que não são todos iguais, dizem, e eu acredito, viviam felizes.

Eram um nadita avessos ao trabalho, preferiam receber o RPI, o famoso Rendimento Porcino de Inclusão, um montante que El-rei Leão, dispensava aqueles animais que tinham menos possibilidades, os porquinhos estavam habituados àquela teta, de quando em vez tinham de ao IFP, o Instituição de Formação Porcina, onde faziam de conta que aprendiam qualquer coisa para se “integrarem”, diziam as Corujas que eram os pássaros mais sábios, alcandoradas nos seus poleiros viviam destas coisas dos institutos e assim, mas meus senhores, os porcos são muito especiais, uma espécie única, tem-se em muito alta conta, dizem que são diferentes, enfim, no tempo das fadas era assim que as coisas se passavam.

Um dia veio à cidade um pequeno rato do campo assustadiço, estava só de passagem, escolheu aquela rua, onde aquela família de porcos vivia, viera para passar uns dias, depois seguiria viagem, mal sabia ele, os porcos, faziam festarolas até altas horas, grunhiam alto como se fosse dia, sem querer sequer saber dos outros animais que pela manhã tinham de ir trabalhar, coisa que os porcos não faziam, era um fartote, para além disso nos tempos livres brigavam uns com os outros, quase sempre a desoras já depois de estarem bem bebidos, volta e meia lá vinha a roda dos guardas d’el Rei, o resultado era sempre o mesmo, grunhiam que se fartavam, tinham um linguarejar de carroceiro, proferiam os piores dos impropérios, ameaçavam tudo e todos, entretanto lá acalmavam, durante o dia, como estavam a dormir não se dava por eles, o pobre do rato do campo estava apavorado.

As coisas que via, ao pobre rato chocavam-no, uma casa onde se juntavam 20 ou 30 porcos, onde ninguém fazia coisa nenhuma, excepto, o tráfico de bolota que naqueles tempos dava muito dinheiro, que coisa aquela, como podiam aqueles porcos agir daquela maneira, seriam todos os porcos assim ou eram só aqueles? O pequeno rato do campo ficara mesmo transtornado, ao Diabo aquela pocilga, ao Demo aqueles porcos, sairia dali o mais depressa possível, não queria nada com porcos, animais avessos a viver em sociedade, animais racistas que desprezavam todos os outros animais, eram uma vara de arrogantes e malvados.

E assim foi, uma manhã fria, o ratinho aproveitou que ninguém estava a ver e fez-se à estrada, jamais voltaria a cair na esparrela de ir viver para onde houvessem porcos, animais sem regras, sem tino nenhum, malcriados e indolentes. Era assim nos tempos em que os animais falavam, hoje caro leitor espero que esteja tudo diferente, incluindo os porcos, cuido até que já não existam, não sei se todos os porcos são assim, mas aqueles eram, e é apenas desses que posso falar – escreveu o ratinho do campo no seu diário, onde cuidadosamente tinha apontado tudo, para memória futura, as horas das festarolas, aquele porco convidado que insistia em vir fazer as necessidades ao terreiro perto da casa, ao invés de fazer em casa, o barulho noturno, as bebedeiras, a música em altos berros às horas de sono dos outros animais, tudo estava registado no seu diário, um livrinho de capa azul, que guardava ciosamente, para mostrar aos outros ratitos como triunfam os porcos.


P.S. – Caro leitor, espero que tenha gostado deste conto do tempo em que os animais falavam, é apenas ficção, felizmente no Portugal em que vivemos não temos “porcos” como estes, espero que nunca tenham de passar por algo como aquilo que o pobre ratito do campo teve de passar, termino com aquela bela frase do extraordinariamente actual livro de George Orwell, “O triunfo dos porcos”1.

« Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros»


Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia

1https://www.bertrand.pt/livro/o-triunfo-dos-porcos-george-orwell/24575768


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