sexta-feira, março 27, 2026

Um presente.

 


  

 

Uma tarde quente, daquelas em que quase não se sente sequer uma brisa, igualmente quente, bebíamos um café, contávamos umas patranhas, eu fumava um cigarro de enrolar, que preparo com uma maquineta que enrola cigarros, seguramente já viram um desse zingarelhos, nunca me ajeitei para enrolar cigarros à mão e hoje que já só tenho uma, ainda menos habilidade tenho, a minha maquineta está velha, é uma mera caixa de metal com uma fita dentro onde se deposita o tabaco, depois a mortalha já devidamente lambida, fecha-se a caixa e “voilá”, um cigarrito de enrolar.

O amigo que estava comigo, a certa altura, pergunta-me se queria uma dessas maquinetas, que tinha uma, como tinha deixado de fumar, por causa da maleita que o apoquentava, propunha-se a ofertar-me o artefacto, disse-lhe que sim, aceitava o presente com a maior das alegrias, e que se preciso fosse acaso alguma vez ele voltasse aos maus hábitos do fumo, coisa de que pessoalmente me deveria também abster, eu devolver-lhe-ia a dita, sorriu, com aquele grande e franco sorriso que o caracterizava, - eu nunca mais fumo pá – diz-me, soltei uma gargalhada, disse -lhe que bastava ultrapassar aquilo que ora o apoquentava, e daqui a uns tempos estaria em forma novamente, depois seria o costume, um gajo não fuma, mas vai ali a um petisco e acaba a fumar três ou quatro cigarros, interessa é no dia a seguir resistir e não cair em tentação.

- Não, está descansado que eu nunca mais fumo – diz o meu amigo. Voltei a rir-me, olhei para os seus olhos, tinham um brilho diferente do habitual, na altura não liguei a esse pormenor, entretanto, retira da bolsa a dita maquineta estendendo-a na minha direcção, - toma aqui está – diz-me, então andas com isso na bolsa e não fumas, ca grande cromo me saíste, deu-me uma desculpa esfarrapada, também não liguei a esse outro sinal, mas ele era assim, por vezes desconcertante, com um sentido de humor afinado e sarcástico, foi por causa desse tipo de humor que começámos a falar há trinta e muitos anos, era ele um puto, e eu também, acabado de chegar do estrangeiro, onde sempre vivera, onde tinha nascido, numa cultura completamente diferente, vendo-se num repente aqui no meio das planas charnecas da lezíria, sem amigos, pior, o seu domínio do português era titubeante, eu falava um pouco de inglês, devo então ter-lhe parecido um “anjo” caído de oportunidade, que lhe matava um pouco da saudade desse estrangeiro longínquo.

Passaram-se os anos, continuamos amigos, continuamos a falar inglês um com o outro, mais por brincadeira, quando o meu filho nasceu, momento de alegria esfuziante, ele estava lá, foi ele que me aturou o enorme pifo que apanhei nesse dia, esse meu grande amigo, de grande coração e maior bondade.

Nessa tarde quente despedimo-nos, eu tinha de ir trabalhar, as férias de Verão, estavam quase ao virar da esquina, disse-me que ia até Espanha com a família, e foi, ainda a conduzir o seu carro que adorava e do qual cuidava com esmero, era um gajo com uma coragem tremenda, não uma coragem física antes uma coragem moral inabalável como até hoje poucas vezes constatei, não o vi mais, vivo, o seu estado era mais grave do que me fez crer, faleceu.

Aquela maquineta, fora o seu presente de despedida, eu, mais asno que uma bota da tropa velha, não percebera o simbolismo daquele pequeno gesto, o meu amigo, o meu grande e bom amigo, o meu grande e corajoso amigo, despedira-se de mim, sem que eu, asno, tivesse percebido, disse-me adeus com aquele seu grande e luminoso sorriso, este texto é um pouco fazer e encerrar esse luto pela sua morte, nunca a vou usar, aquela maquineta, está guardada, é uma memória, as memórias são para desfrutar, as boas mais que as más, aquela máquina é uma memória, daquele sorriso imenso, adeus amigo, obrigado por teres feito parte da minha vida, um grande abraço.


Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia

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