segunda-feira, setembro 10, 2007

Strangers in the night!

A noite, com os seus mistérios e silêncios, onde os pios dos mochos e as festas das bruxas, nas encruzilhadas, fazem acordar todos os ancestrais medos do humano, foi sempre um campo fértil para encenações, ilusões e sonhos, a noite exerce sobre o homem um efeito de atracção, misto de medo e desejo, a noite cativa, todos os que por ela passam.

Conheci o mundo da noite relativamente bem, com todas as misérias e qualidades da natureza humana, trabalhei uma década quase duas na noite, nas profissões pouco recomendáveis de segurança de bar e discoteca, nas cobranças musculadas, não faço disso um orgulho, foi uma fase da vida, aprendi bastante.

Quando comecei, aos 16 anos tinha já um corpanzil razoável, fazia matinés, era o ajudante do porteiro, como as matínés eram essencialmente frequentadas por maralha da minha idade eu actuava como uma espécie de mediador, com 18, levado por um sargento da minha guerra fui para Lisboa, naquela altura, os seguranças eram gente de classe, eram bons bandidos, ex-militares ou militares no activo, duros mas com dois dedos de testa, ou então malta da velha guarda, durões, calejados pelas guerras de navalhada do Intendente e do Cais do Sodré, das noitadas do aprazível Bairro Alto, privilegiava-se o diálogo, tentava-se levar o cliente à certa, acrescento que em 14 anos de noite dei porrada em três imbecis, que mereceram toda a sopaparia que lhes enfiei pelo focinho.

Mas a principio dos anos 90 a coisa muda, começam a aparecer os armários de ginásio, aqueles gajos muito grandes com braços muito grossos, cheios de hormonas, com um cérebro do tamanho de um amendoim, começam a aparecer, muitos polícias, já existiam alguns, mas agora eram mais, até existia quem fizesse segurança a um bar ou discoteca, armado com a arma de serviço.

A noite começava a perder o encanto, os bisontes sem cérebro, não sabiam ser seguranças, a doutrina de um segurança diz que ele deve servir para impedir e mediar conflitos, não para os promover, pois mas esses depósitos de hormonas não conseguiam, de tão grunhos e labregos que são, à mínima desculpa eivavam a cara do incauto cliente com uma saraivada de murros, aquele mundo que nunca fora muito saudável era agora um mundo completamente podre, onde se traficavam drogas e armas com muito dinheiro pelo meio, esse dinheiro era um chamariz, polícias corruptos, seguranças traficantes, empresários bandidos, taxistas proxenetas, juntavam-se todos em alegres noitadas, chega a existir um modos operandi curioso que se trata de prostituição encapotada, onde grupos de 4 ou 5 prostitutas atacam em discotecas da moda, chegam como se fossem clientes normais e como numa discoteca anda quase sempre metade a tentar engatar a outra metade a coisa dá lucro.

Quando comecei a namorar a minha actual mulher, deixei o trabalho noctívago, já tinha dores nas costas e nos joelhos, já não tinha paciência, o tipo de cliente também tinha mudado, antes as pessoas eram mais educadas, hoje o adolescente bêbado e brigão sem cara para levar uma chapada era o prato do dia, por isso dá para rir quando hoje vejo os nossos políticos e governantes muito preocupados com a luta do submundo da noite, o que andaram a fazer este tempo tudo a dormir, a criar leis estúpidas, a esquecer-se de criar outras que seriam importantes.

Não me espantam todas estas mortes, há 20 anos conheci, porteiros que vendiam ouro roubado, seguranças que serviam de intermediários a negócios de armas, um tinha seis mulheres a trabalhar para ele, na vida! Outro era polícia e roubava carros, mas isso foi há muito tempo, dois até já faleceram, comparados com a malta de hoje aqueles tipos eram uns anjos.

Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia

13 comentários:

Telmo Marques disse...

ainda bem que estive sempre do lado dos teus amigos e nunca dos inimigos... :)
um abraço.

Anónimo disse...

Um bom reláto da VIDA REAL nocturna deste País.
Na verdade e confesso não perceber como se estraga vidas num ambiente desses.
Mas a juventude hoje não é como a da antigamente.
Esta juventude tem manias de grandeza, são refilões em tudo e teem a mania que sabem tudo da VIDA.
touaqui42

Carlos Gil disse...

linkei. abraço

Andreia do Flautim disse...

La diz o ditado: De noite todos os gatos são pardos!

Suso Lista disse...

A tua é unha VIDA con maiúsculas. E coma sempre nunca che falta a razón. Saúdos

NightWolf disse...

Um tema actual visto por palavras sábias, é uma realidade dos nossos tempos. Um abraço

125_azul disse...

Há noites mais escuras que outras... Beijinhos

Joana Dalila Santos disse...

Ah! Homem!

Andesman disse...

Nunca fui muito frequentador de ambientes nocturnos. Contudo há umas décadas atrás andei pelo Bairro Alto e entrei em todas as "Cova da Onça" do Intendente, acompanhado por um amigo já falecido, que era cliente da zona e tinha ali gente a trabalhar para ele. Entrávamos, eu tomava algo e saía; o ambiente nunca me agradou em tempo algum. De discotecas também nunca fui grande frequentador, mas o ambiente degradou-se muito e pouco ou nada, tem a ver com o de há 30 anos atrás. São os novos tempos, e são piores. 1 abraço para o Barão

RCataluna disse...

Grande post!!!!

Chanesco disse...

Meu caro Barão

Como dizia a minha avó, numa oração que fazia antes de adormecer:
"... e Nosso S'nhô mes livre dos más topes!"

Um abraço Raiano

A. João Soares disse...

Uma descrição tão pormenorizada merece ser ponderada. Assim se compreende as notícia que recentemente têm chegado. Não é saudável deitar tarde!!!
Abraço

antonio disse...

Ó caríssimo, ignore o meu comentário no post decima... é que só agora é que li estes seus dotes de justiceiro!

A Cova da Onça! Aos anos! E nunca tropecei num segurança.