Escorreito leitor o Barão descobriu na Torre do Tombo esta carta de achamento, caso a achem parecida com algo que conheçam, relevem que é tudo coincidência. A Labregónia não existe! Ou será que existe e tem outro nome? Será que com aquelas naus vieram Labregos?
“Ano da Graça do Senhor de 1506, Dom Epaminondas Landislau, por mercê de Sua Majestade, capitão-mor da Armada de Rilhafolhes, comunica a Vossa mui estimada Majestade que hemos arribado hem uã terra, da mesma já tendo capturado um indígena e sabendo já da sua linguagem os muito grão rudimentos.
Lançamos ferro em uã ínsua, mui tamanina que em guisa de porto de abrigo nos faz muita mercê e folga, o Capitão-mor manda arrear seis bateis aonde se leva além do Capitão, Frei Gaspar Sublime, Jeremias Mastaréu e mais vulgares gentes de armas e este seu criado em guisa de cronista e prestador de relatos deste achamento.
A praia é larga de para mais de quatro léguas, logo topamos os indígenas, assim e por chegar à fala com eles houvemos de saber o nome da terra que é a Labregónia, sendo os habitantes os Labregos, estes são enfezados, bisonhos e mui dados a escarrar ao chão, coçando as partes pudibundas em tal desleixo que envergonham até o Mestre d’Armas, homem rijo e afeito a contras.
O capitão manda arrear e botar chumbo ao padrão de Sua Majestade, pronto que fica e prestes um Labrego, arreado em uã vestimenta estranha com hum barrete de pala e calçonitos largueirões, com o mais perfeito ar de parolo, lhe assoma e arrefinfa uã pintura, que por cá lhe chamam arte do grafito, eu chamo de pura estupidez arruaceira, estando pespegada em todo o lado, casas, muros, carroças, comboios, monumentos e todo o local onde este tipo de Labrego daninho entende largar a pintura, conspurcando tudo.
Perante tal desmando manda o capitão assestar uã ronda de arcabuz, protegidos de duas alas de piqueiros, fugiram os Labregos em desordem, seguiram os nossos para adentro de muralhas, onde vimos mui esquisitas ruas, é moda dos Labregos estacionarem carros, carretas e carroças em cima dos passeios, indo os que vão a pé pela estrada, em uã das mais completas estultices que já vimos, estes Labregos vivem em condições absolutamente miseráveis e no entanto dedicam tempo e recursos não ao trabalho mas aos campeonatos de empurra bolas às três tabelas muito populares em estas terras. Ainda as ruas estão cheias de lixo, papeis e dejectos de cão, porque mesmo morando num qualquer quinto andar de duas divisões Labrego que se preze tem de possuir hum perro que faça sas cagaduras em o chão das ruas.
Os Labregos são ociosos e pouco dados à labuta, sendo mais destros nos esburgos e folganças, para os quais o seu governo contribui com rendimentos mínimos e demais prebendas, que os escusam de canseiras, podendo dedicar-se a tráficos vários vendas ambulantes e costumeiros morticínios a tiro sem mais escusas, mas dizem que é cultural, que dentro da raça dos Labregos estes são de raça étnica diversa e protegida, bem por mim são tão Labregos como os outros usam é da escusa cultura para embarretar os outros e nunca vergar o canelo para ter casa, carro e demais mordomias, tais são estes Labregos que só visto. Os próprios governos são eira de doutores em Leis e outros que mais esburgam e se governam do que fazem por governar, nunca achando demais as lautas tenças que auferem de bem ou por malas-artes.
É opinião do Capitão-mor que Sua preciosa Majestade deva atirar fora o mapa para esta terra, pois os males e vícios destas gentes depressa contaminam os outros, e nem a sua santa devoção, com muitos santinhos, velinhas e milagres, bruxas, bruxos e benzilhões os safam de rabiar que nem almas danadas nas antecâmaras do purgatório, o que faz pensar que o próprio Altíssimo não queira nada com esta gente, que ao que consta e nos números deles em assentos próprios, são os melhores no todo que é péssimo e os piores em tudo o que é de bem, estranha gente esta da Labregónia, donde o Capitão-mor mandou recolher o padrão e levantar ferro para não mais regressar, com permissão de Vossa Majestade, faremos uma cruz na porta para ninguém mais voltar. Vamos levar uns casais de Labregos para por em cobrição e ver que gente dá em ficando em meio de civilizados, tão prestes cheguemos a Lisboa e estes Labregos cheguem em bem.
E por ser verdade e por o ter visto, manda o Capitão-mor que o escreva e envie a Vossa Senhoria, aos 28 dias do mês de Outubro de 1506 neste dia de São Sinfrósio Anacleto.”
Um abraço, deste vosso amigo
Barão da Tróia