Não bastas as vezes tenho dado com a cachaporra de pau de marmeleiro, curtida à fogueira para endireitar e ficar rija, do melhor que há para resolver quid pro quos com escumalha da mais variada, dizia eu que já tenho em outras ocasiões zurzido na lombeira da nossa comunicaçãozinha social. Estamos mais uma vez a viver um desses momentos de imbecilidade conjuntural e estrutural.
As televisões abrem com furos fantásticos, “Ronaldo entalou a gaita na fechadura do guarda-fatos”, “Deco engasga-se ao deglutir um pastel de nata falsificado” ou ainda “Scolari encontrou uma caganita de rato no balneário”. Sempre que os energúmenos que de voz esganiçada, quase em êxtase orgásmico, alias o microfone tem o seu quê de fálico, e ao vê-los a empunhar o dito zingarelho com aquela sofreguidão atabalhoada com que falam, não consigo deixar de pensar que aquilo ali tem história, talvez alguém com conhecimentos em psicologia consiga explicar.
A cada parvoíce que entope os canais de televisão nos vários noticiários, é ver a maralha torpe e babosa em puro deleite, um destes dias, tomava um café e fumava um cigarrito num dos raros sítios onde tal prazer ainda se permite aqui na terra, na televisão, depois de uma hora de notícias sobre Fátima e depois sobre a Selecção que de premeio com o Fado continuam a ser as coisas mais importantes do panorama luso-labrego, dizia eu, que após essa estúrdia hora, rematou aquele canal com mais meia hora a falar de um desses cromos da bola, da sua casa de sonho, do carrão, das taças e dos brinquinhos e demais parafernália, que faz parte do arsenal desse tipo de nearderthal, curioso nas várias imagens da barraca de luxo da criatura, nem um livro, nem uma revista, nada que indique um poucochinho de algo, pois antes um vazio materialista enorme.
E a cada tirada do imbecil jornalista, correspondia o símio futeboleiro com uns grunhidos que pareciam português, a audiência labrega extasiada, dava vivas, ria como se fossem os gajos mais felizes do mundo, por ver que o outro a dar pontapés na bola tem o que eles só em sonhos conseguirão e mesmo assim por demais efémero, risos incontrolados, baba espalhada por todo o lado, num dos mais tristes espectáculos que alguém pode assistir.
Mas o mais triste é saber que aquela mesma hora em milhares de lares e de tabernas como aquela, outros tantos milhares de analfabrutos, mal pagos, endividados até aos ditos, cansados e infelizes se deleitavam num quase êxtase místico com o mais absoluto sub-produto do lixo jornalístico, numa orgia de estupidez e boçalidade completa, triste até à náusea.
E é até à náusea que me levam estas televisões, os pseudo jornalistas, a seriedade imbecil para coisas que não tem absolutamente interesse nenhum a não ser aquele interesse relativo que qualquer actividade nos deve merecer, mais uma vez estamos a embandeirar em arco, a ver vamos se o arco não se parte e rasga as bandeiras. Mais uma vez as televisões revelam a sua faceta de lixo, lixo nauseante, que entope os ecrãs com imbecilidades e cretinices, servindo ao povaréu, o jantar de garoupa do senhor, enquanto o pobre povareu rói o rabito de sardinha sarnento e a batata velha cheia de grelo.
Televisão em altura de Selecção, que náusea, que enjoo...
* Obra de Jean-Paul Sartre
Um abraço, deste vosso amigo
Barão da Tróia