Diz o manual de aspirante a governante no seu ponto .32, alínea a) subsecção 12b, parágrafo 4º, que, “Todo o potencial aspirante ao cargo cimeiro da governação, ou todo o politico que queira mostrar serviço, deverá pelo menos uma vez deambular pelo país, mostrando ao público, potencial votante, que anda a conhecer a realidade e que está interessado no povinho, ressalvasse os incómodos de tal atitude, beijos de peixeiras escamosas e fedendo a peixonga, velhos rançosos a cheirar a urina, agricultores falidos rasos de estrume, bairros sociais atulhados de minorias piolhosas, operariado e sopeiras com mãos sujas e perfumes rascas culminando com os inevitáveis ósculos a fedelhos ranhosos e cheios de baba, no entanto e apesar de tal atitude não estar provado que traga algo de positivo é aconselhável que o político o faça.
E, lá vão eles, fazem-se à estrada, a equipa escolhe cuidadosamente os locais, assegurando-se que os momos da comunicação social lá estão, para fazer aquelas perguntas imbecis do costume, naquilo a que bem poderemos atribuir o epíteto de circo mediático, onde os malabaristas políticos tentam com maior ou menos grau equilibrar-se em terrenos que desconhecem completamente.
Esta coisa das viagens ao país real, é mais do mesmo das célebres conversas em família do tempo da outra senhora, começou pelas famosas presidências abertas de Soares e continuou por aí afora, porque a coisa caiu no goto do politiqueirote comum, além disso a populaça fica sempre admirada que os senhores todos poderosos, se dêem ao trabalho de descer da torre de marfim e venham chafurdar no pântano onde todos nós, os pobres peixes sapos vivemos, e é vê-los arregimentados aos magotes, empurrando-se a eito para apertar a mão ou beijar o galfarro de quem, não ainda há cinco minutos diziam cobras e lagartos, cuspindo no chão só de lhe ouvirem alumiar a graça.
Curioso que vejo estas coisas como um safari em África, os senhores brancos, lá vão nos seus carros potentes, caçar e visitar as palhotas dos pobres pretos, ficam muito impressionados, miram e remiram tudo, tiram fotografias, dão chocolates às crianças e fazem-se retratar juntos aos troféus abatidos, ou junto a um soba, de olhos minados pela malária e pelo álcool, no dia a seguir acordam, ala que se faz tarde e voltam para a civilização, tempos depois dizem a todos os amigos que estiveram lá, mostram as trezentas e setenta e cinco mil fotografias e pondo um ar grave e sapiente contam a experiência e as maleitas civilizacionais dos locais que visitaram, numa semana, tornaram-se em peritos sobre o local, e sobre todas as áreas desse mesmo local, pois as visitas ao país real, fazem-me lembrar isso.
Com algumas diferenças, aqui o processo é idêntico, porém aqui a caça é ao voto ou à popularidade, os pretos somos nós todos, as condições serão menos miseráveis, acho eu! No entanto o resultado é idêntico, passada uma semana os camaradas vão encher o bicho do ouvido à malta com tudo o que aprenderam sobre a terreola, tornando-se de súbito e sem mais aquela especialista, conseguindo citar nos seus discursos os exemplo e localidades que visitaram, fazendo parecer que tudo aquilo é real e é sentido.
Para além de todo o arraial e espalhafato, uma coisa é indesmentível, estes senhores ao declarem a intenção de visitar o país real, passam a si mesmos um atestado de ignorância, declarando à tripa forra, que não conhecem o país onde vivem, ora se não nos conhecem como podem querer ser os nossos governantes, se não sabem quem nós somos, como podem anunciar medidas para um país que desconhecem, fico perplexo com toda esta hipocrisia, que já não é de agora, mas que se tem acentuado.
Um abraço, deste vosso amigo
Barão da Tróia