segunda-feira, setembro 17, 2007

Diário de Férias I

Ao princípio impressionaram-me os olhos, grandes, expressivos, negros, com a profundidade de uma alma generosa e alegre, depois foi a história de uma mulher igual a tantas outras, uma história de amores e desamores, onde as tristezas mais são que as alegrias, ainda assim não tiram o brilho a estas gentes fantásticas, depois de conhecer a sua história ainda me impressionou mais.

Mas adianto-me, comecemos pelo principio, estava de férias num poiso habitual com a malta habitual, entre todos, existem cinco fedelhotes piquenos, cinco diabretes, sentado no barzinho que serve de apoio à praia discuto com o Carlos a trabalheira que vai ser, estar atento aquela malta toda, sim porque apesar de sermos uns labregos da província, um ou outro detentor de uma licenciatureca verdadeira, mais prós graduação e mestrados incompletos, não somos pessoas de deixar os putos a dormir para ir para os copos e muito menos deixa-los sós, prezamo-nos por sermos pais galinha, mas lá estou de novo a fugir à história, isto foi só um aparte.

Discorria-mos então entre uma fresquinha e outra sobre como atalhar a coisa e manter os porta cueiros debaixo de olho, quando a senhora do barzinho a Almerinda nos diz: - Olhe se quiser a minha Raquel pode tomar conta dos meninos, ela tem muito jeito, para as crianças!

- Olhamos um para o outro, pagamos a cervejola e fomos conferenciar com o resto da maralha, trato feito, combinado o preço a Raquel nos sete dias seguintes foi a nossa melhor arma, para garantir que nada acontecia à pequenada.

Mas também não é da Raquel que vos quero falar, alias não é só dela. Quero, falar-vos é da mãe, que é a dona do barzinho, é eufemismo chamar barzinho aquela barraquinha mas enfim. A Almerinda, é uma mulher de armas, há dois anos o marido, pescador, seguindo a tradição do pai, morreu de ataque cardíaco, ficou só com os cinco filhos, o Marco de 3 anos, a Joana de 7, o Ruben de 12, a Raquel de 17 e o Miguel de 19, vivem todos num T2 num bairro social.

A Almerinda esfalfa-se a trabalhar, vê-se que foi uma mulher bonita, ainda o é, apesar de envelhecida precocemente, guarda ainda traços dessa rara beleza mediterrânica, onde o tisnado do sol se alia a lábios grossos e olhos amendoados, ancas fortes e seios fartos de mulher de trabalho, uma verdadeira força da natureza. Trabalha a dias, limpa escadas, passa a ferro, apanha fruta, nos meses de Verão explora este pequeno apoio de praia a meias com o irmão que faz de banheiro junto com o sobrinho Miguel que para além disso, frequenta a Universidade num curso de engenharia onde é bolseiro de excelência, nunca tendo perdido um ano, a Raquel segue-lhe no rasto entrou este ano também com uma bolsa para enfermagem, mas ela gostava era de ser educadora, adora crianças.

Candidatou-se a Almerinda a subsídios vários, daqueles que são dados ao desbarato, entregues de mão beijada à ralé que nada produz, mas não foi aceite, por ter o bar é considerada uma empresária de sucesso, creiam-me que não o é, vivem com dificuldades, sempre com o dinheiro contado, no prédio ao lado do da Almerinda vive uma dessas excelentes famílias de nómadas trapaceiros, vivem com muitos euros de apoios, subsídio para os 3 putos irem à escola, que vão quando lhes apetece mas o dinheirinho é sempre a cair, pagam cinquenta euros de renda a Almerinda paga 120, o papá para equilibrar as contas vende umas 6.35mm adaptadas, mais umas gramas de pó e lá vai andando, umas vezes de BMW, outras na carrinha Vito, um verdadeiro magnata.

Agora perguntou eu. Que merda de país é este? Que merda de país discrimina assim os seus cidadãos? Que merda de terra é esta que, trata assim mal as pessoas honestas e trabalhadoras e premeia a escumalha? Senti pena da Almerinda e dos seus meninos, olhava para os nossos e pensava nos dela, tantas Almerindas, tanta tristeza, tanto sofrimento, tanta gente que se perde, tudo perfeitamente evitável, se acaso, entre as várias encomendas estragadas que se entretêm a fazer de conta, por entre os corredores do poder, existisse algum, com alguma qualidade.

Um abraço, deste vosso amigo

Barão da Tróia

19 comentários:

125_azul disse...

Também me pergunto, dia sim e no outro também, que merda de país é este, pelas mesmas razões que tu e por outras coisinhas mais...
Beijinhos

Andreia do Flautim disse...

Realment a vida é madrasta para muita gente...

Joana Dalila Santos disse...

Chega a dar vergonha de ser português

Blossom disse...

Boa semana amigo Barão

missixty disse...

Ainda me lembro de ter soletrado um dia com voz trémula..."juro cumprir com lealdade as funções que me foram desempenhadas"!Mas muito poucos funcionários públicos dizem isto, pensando sériamente no que estão a dizer!Não há pessoas competentes, nem honestas, isto tudo é uma balda e o salve-se quem puder! E depois ve-se casos injustos como o que disseste, porque alguém nem se deu ao trabalho de analizar bem a situação!

Ruby Sackville-Baggins disse...

Pois, tens toda a razão em estar indignado, porque, de facto, estas são os tipos de situações que nos deixam entristecidos.

Porque hoje já ninguém se dá ao trabalho de vasculhar, ou trabalhar em prol dos que realmente precisam e fazem algo tão desesperado para viver... É como calha! Subsídios, das duas uma, aleatório pelo computador ou aleatório pelas mãos de algum infeliz. A tristeza é que raramente acertam no alvo certo.

**

Diabólica disse...

Realmente este país é cada vez mais uma vergonha. Estes filhos da puta é que se safam sempre, quem trabalha é que se lixa.

Mas, é que nem com bons carros à porta, os nossos governantes abrem a pestana... ou não querem abrir.

Será que somos os únicos a ver isto???

País de merda, é o que é.

PS- Tenho um artigo novo no meu blog e gostava de recolher a tua opinião, se puderes faz-me uma visita

Bjs

Trequita disse...

tenho um desafio para ti no meu blogue!

antónio paiva disse...

..............

os pontos no ponto!

...........................

Abraço

António Lisboa Gonçalves disse...

Caro Barão, infelizmente para tantas "Almerindas" que temos por cá, os poderes públicos são cegos nos apoios levando a pensar que mais vale não produzir nada e receber os subsídios!

Triste país este!

Pelintra disse...

Infelizmente, é do que mais vejo por imperativo profissional...

Sininho disse...

E, na volta da estrada, tenhamos nós o azar de colidir com a carripana do "políticamente correcto", o tal do pó, que vinha para cá na contra-mão.
O mais provàvel é levarmos só um enxerto, ele virar a carripana e nós ficarmos com o prejuízo e o nariz deitado abaixo se, entretanto, não vier a chegar a B.T. que nos considere responsáveis pelo acidente...
Tudo um "supônhamos", mas perfeitamente viável, num país cujos governantes se põem de cócoras perante os espertahões, enquanto abandonam os simples à sua sorte.

Cristina disse...

Hoje venho aqui apenas para te oferecer um miminho, vem ao meu cantinho e lá o encontrarás
:)

beijinhu

Anónimo disse...

Pois é na verdade os subsidios são para os espertos.
E não só claro.
Como aqueles que apresentam uma catrafádas de miudos como filhos deles para receber á cabeça.
Mas claro que é uma empresária de sucesso, no Verão mata-se a trablahar e no resto do ano anda aos caixotes do lixo (pensam eles os entendidos).
É uma tristeza na verdade o sistema de Vida de um SER HUMANo e no caso dessa mulher é uma delas.
Mas como disse a VIDA está para os espertos.
Quando a camada POLITICA jura solenemente, já se encontra com a máquina de calcular fazendo contas ao que vai usufruir.
Não estão ali por amor á camisola.
Estão ali porque os Partidos existem para isso mesmo, fazendo calculos da massa a ganhar no tempo que ali teem o traseiro sentádo.
touaqui42

abril disse...

Pois é amigo Barão(Cada vez mais Barão justifica ser escrito com letra grande)este país de merda que temos podia ter sido evitado ,se apesar de muitas coisas boas ,a Revolução que podia e devia dar volta a isto,não tivese sido também uma merda.Foram flores a
mais e G3 a menos...

Dizias há pouco que isto estava a precisar de uma volta,está mesmo,mas torno a questionar.
COMO,COM QUEM e COM QUÊ?

Um abraço Barão com letra grande...

bluerussian disse...

Caro Barão mais uma vez no cerne de toda a razão!!!! Excelente descrição da realidade. As entidades responsáveis pelas atribuições de subsídios tem mais facilidade em dá-los a quem lhe smete medo, ou mete nojo, e em negá-los a quem os merece mesmo, porque até tomam banho e tal, se andam de cara lavada e razoavelmente apresentados, são ricos, sim, porque pobre mesmo é naturalmente porco. Conheço casos de gente q antes das famosas entrevistas para os subsídios está uma semana sem se lavar, nem roupa nem nada, para se apresentar nos gabinetes das senhoras da segurança social de maneira a que elas fiquem tão enojadas que os mandem embora logo com a massa, para não terem que os receber outra vez. depois, ao voltar, passa pelo café a pagar umas bejecas aos amigos, vai tomaro banhinho merecido, pega no BMW e vai para o centro comercial mais próximo comprar roupinha na Zara, para gastaro subsído que as papalvas lhe deram.
vergonha... e ando eu a pagar seg social para isto...
Boa semana, Barão

Alien David Sousa disse...

Olá Barão,

È o país que temos. Existem muitas Almerinda espalhadas por ele.

Beijinhos

hora tardia disse...

diário constante.



__________________excelente "apontamento".



beijo.


de um piano. calado por agora.

commonsense disse...

É preciso compreender que o orçamento tem crise, que primeiro é preciso subsidiar a Fundação Berardo, dar emprego aos boys, construir aeroportos inverosímeis, mandar contingentes para o Afeganistão... enfim, tarefas patrióticas. Viva o choque tecnológico que não há espaço para o choque moral!