terça-feira, setembro 12, 2006

O Pacto

As bátegas escorriam pelas folhas do antiquíssimo carvalho, tão grande e tão antigo era, que lhe chamavam o carvalho da memória. Debaixo do mesmo os líderes dos dois bandos de malfeitores da floresta Sempre em Crise, também conhecida como a Floresta de Portigale, congeminavam um pacto para gerir a Justiça entre si.
Por ventura o preclaro leitor achará sui generis que dois bandos de galfarros, estejam preocupados com a Justiça, pois, também eu, mas dizem que naqueles tempos até os bandalhos tinham honra, de um lado o Zé Anjinho por alcunha “O Pitágoras” porque tinha a mania que era esperto, líder do bando da Rosa Enjeitada, do outro Marquês Dementes “ O Meia Dose”, porque era de estatura pequena, líder do bando da Laranja de Umbigo.
Entre os dois decidiam a sorte da Justiça do reino que andava na mó debaixo, cheia de tempos e contra tempos, emperros vários, e atrasos bíblicos. Os tribunais cheios de processos, os Juízes rasos de trabalho, tão cheios de trabalho que já nem tempo tinham, de gozar os dois meses de férias que tinham, enquanto o resto da malta só tinha os 15 ou 11 dias da praxe e que sabiam sempre a pouco.
O trovão de Thor, bombardeava o martelo, o estribo e a bigorna, que para o mais distraído dos excelsos leitores são ossos do ouvido, alias os mais pequenos do corpo humano, a dica é de borla. – Acho que devemos deixar a corrupção fora disto, não achas Marquês! Invectivava o Zé Pitágoras ao seu rival do esburgo.
- Sim concordo contigo Zé, afinal a corrupção é um assunto demasiado sério para ser deixado ao cuidado da Justiça, que é claro de ver, já tem muito que fazer.
- E mai nada! Anuía Zé Pitágoras, em absoluta concordância com Marquês Dementes e riam os dois com a cara que fariam os líderes dos outros bandos da Floresta, quando eles apresentassem este acordo. A tarefa tinha sido árdua pois existiam espiões que poderiam fazer perigar o acordo e revela-lo antes de tempo, claro que até existia uma coisa consignada na Lei que se chamava Segredo de Justiça, mas ninguém ligava a isso, aliás era mais fácil e mais barato e mais rápido, quando se queria ter acesso a um processo, subornar um funcionário do que pedir pelas vias legais.
- A cara que o Castro Taxista vai fazer mais o bando das Caldas! Vou rebentar a rir. – Atirava o Pitágoras. – E o Camarada De’sousa do bando do “Vai em Frente” esse vai espumar de raiva, porque não foi ouvido e porque os trabalhadores e porque torna e porque deixa, é pá ó Pitágoras isto vai ser um fartote! – Marquês já ria a bandeiras despregadas. – Ah e não te esqueças do Xico Loiça esse então vai rebentar o capacete.
- E riam os dois rebolando-se pela manta fofa de folhas de carvalho ligeiramente humedecidas pela chuveirada. Convenhamos que era um golpe de génio, até porque os dois bandos viviam da corrupção, os seus correligionários e comparsas, untavam as mãos uns aos outros e os outros aos uns para as negociatas irem de vento em popa e eles encherem os bolsos, eram as obras públicas, os contratos, as edilidades, o futebol, enfim um nunca mais acabar de malfeitorias, isto num reino onde acontecia um fenómeno extraordinário, existia corrupção, mas nunca existiam nem corruptores nem corrompidos, esta dos corrompidos é tramada.
A extremosa polícia judicial do Reino, reconhecida pela sua capacidade, quando se tratava de casos de corrupção era uma autêntica nulidade, um verdadeiro bando de incapazes, que trocavam tudo, que se enganavam, que nunca conseguiam provar nada nem prender ninguém.
Assim com este acordo protegíamos os amigos, fazendo de conta que estávamos a fazer alguma coisa para que tudo ficasse na mesma como a lesma, sim senhores era brilhante o plano, de uma assentada, ficavam bem vistos e os amigos ficavam a salvo das garras da Justiça.
Debaixo do carvalho da memória os risos dos dois galfarros ecoavam pela floresta, ia já alta a Lua e nem o pio do mocho assustava tanto, como o lúgubre cacarejar da risota ínvia daquelas duas almas penadas.
Fim

Esta era uma história que a minha avozinha me contava, quando eu não queria comer a sopa, não sei se é verdadeira, talvez não seja, talvez seja só uma lenda antiga, se parecer verdade não liguem que é só mais uma coincidência.

Um abraço, deste vosso amigo
Barão da Tróia

22 comentários:

Cucagaio disse...

Será só uma história?

Anónimo disse...

Hum não me parece ser história alguma, então sendo assim um dia temos ai a história do Zé do Telhádo, aquele que roubava aos ricos e dava aos pobres.
Qualquer acordo que eles façam não vai dar resultádo algum para os portugueses podem crer, até me admiro como certas cabeças do PSD ainda vão na cantiga.
Faz lembrar aquela do coitádo que planta uma arvore de fruto, que rega, que cuida, que enfim a mima e quando chega a altura dos frutos vem uma mão estranha que dá cabo do desgraçado do trabalho do outro e por cima deixa um aviso, a terra é de quem a amanha mas o produto é de quem a apanha, ora toma lá que já almoçastes.touaqui

sem-comentarios disse...

Histórias há muitas ! essa parece-me muito real.
Mais, um excelente texto !

Bj**

dreams disse...

excelente...

adorei a história... será que comias a sopa toda a ouvi-la?
lol

um beijo doce *
“·.¸Dreams¸.·”

missixty2000 disse...

Já não fazem avosinhas como antigamente, então isso é historia para criancinhas.??.ehehehe
Saíste-me um bom contador de histórias.Taditas das raparigas que te passarem pelas mãos...estou a brincar!!!
bjs

francis disse...

O altruísmo destes rapazes em prol da Nação, deixa-me de lágrimas nos olhos! :-)

Andreia do Flautim disse...

Não me lembro de me contarem histórias para comer, mas de certeza que só me contavam a do capuchinho vermelho, dos 3 porquinhos...

LFM disse...

Andamos cheios de coincidências a cada esquina.

woman's secret disse...

Deixo um beijo à minha passagem por aki.

eu mesma! disse...

mas o qu'é qu'a corrupção tem a ver com a justiça???? os gajos até têm razão... depois como era?
a próxima vai ser da pedofilia... também não têm nada a ver..., só vieram ver a bola!

parabéns pelo magnífico texto! excelente.

Mixikó disse...

Gostei de te ler...mais uma vez...excelente texto...

e-konoklasta disse...

Afinal foi só pa(c)to com laranjas, mas eu prefiro o pato com laranja, é muito melhor... Agradeço os piropos que fez ao meu blog...
Até breve.

Nunovsky disse...

Bela história, é facto ;) E a sopa? Ia ou não?

Lord of Erewhon disse...

Bela e sábia parábola!
O amigo Barão não cessa de me espantar!
Abraço!

Mocho Falante disse...

para o primeiro post que leio tenho de confessar que gostei e muito...aproveito para agradecer a visita e pedir permissão para aqui voltar!

Abraços

Dad disse...

Muito bonito. Belo texto!

Abração,

Teresa Durães disse...

concordo com um leitor daqui... corrupção e justiça... juntar tudo para quê??? assim uns quantos ficam ricos e ninguém se aborrece. ora então!!!!


Boa noite! Gostei!

Daniela Mann disse...

Beijinhos, voltei!!!

Alien David Sousa disse...

Barão, e tu recusavas a soupa muitas vezes??!?!

Bel disse...

Porque há estorias que nos marcam e perduram.

P.s. se puderes passa la no blog, estou a tentar identificar uma música quam sabe nao conheçes
obrigado
jinhos

musqueteira disse...

viva barão... todas as sopas são feitas de água.muita água...bastante água;)

xicoxperto disse...

Já não há avozinhas para contar histórias dessas aos netos (estão todas em lares "manhosos", daqueles em terceiros andares, sem elevador, sujeitas a servirem de pasto às chamas se algum dos avozinhos adormecer com a "beata" ao canto da boca) mas histórias é o que não falta.
Verdade ou não, está muito bem contada esta história. Continua a ser um regalo vir aqui.
Um abraço.